Ao que parece a época aristocrática anterior à revolução bolchevique nas vastas extensões do antigo czar (na qual se incluía o aqui retratado Cazaquistão) está em sintonia com os tempos do pós-comunismo na mesma região. O realizador Darezhan Omirbayev transporta sem grandes problemas a clássica história de Dostoievski, “Crime e Castigo”, publicada em 1866, para os tempos atuais do seu país.
Em termos de enredo, é uma versão “anémica” e quase visual do romance do escritor russo, sem qualquer sombra da grandiloquência que, por vezes, as obras clássicas inspiram. Em termos temáticos, no entanto, é bastante fiel. O filme narra a história de um estudante que testemunha por todo o lado a opressão e a injustiça e que decide, ao invés de só “falar” ou “escrever”, como diz a certa altura, tomar uma ação concreta. Esta consiste num crime, com o qual pretende se equiparar aos poderosos na sua completa falta de sentimentos quando se trata de obedecer a lógica de poder. Mas o “estudante” não é um deles…
O filme por vezes utiliza signos tão maniqueístas que parece uma aula para principiantes, mas depois do crime a simbologia fácil vai desaparecendo, assim como os diálogos. O que não quer dizer que a ânsia de mostrar o mergulho nas sombras do protagonista só através de imagens seja uma mais-valia e parece mais uma figura de estilo do que utilidade dramática.
Mais uma obra do LEFF saída da mostra A Certain Regard do Festival de Cannes 2012, “The Student” vem reforçar a coleção de retratos cinematográficos vindos do leste europeu absolutamente desencantados com a selvageria social e a cínica retórica do liberalismo lá implantado após a desintegração da União Soviética. Ao mesmo tempo, Darezhan Omirbayev não deixa de emoldurar o seu panorama social com vozes académicas discordantes (professores e livros) e com televisões omnipresentes – utilizadas para reforças as ideias de domínio através da política (noticiários), da cultura de competição (programas de vida animal) e da mais pura alienação (programa de auditório com música pimba).
O Melhor: uma análise psicológica conectada de forma coerente com o quadro político e social
O Pior: um academicismo na execução que já ameaça se tornar oco
| Roni Nunes |

