Uma das primeiras constatações das elites nos alvores da humanidade após o tempo das cavernas foi a da necessidade de criar e manipular mitos para os seus governados. Estes alteraram-se com os tempos e no nosso mundo sem deus e sem anjos os astros fabricados pela indústria cultural assumiram esse papel. Brandon Cronenberg, que situa a sua história num futuro indeterminado, leva esta dependência às últimas consequências.
Os habitantes desta sociedade, já num grau de carência emocional extremamente elevado, terminam por se conectar aos seus ídolos de uma maneira literalmente pouco saudável: o compartilhamento de vírus… Os famosos aqui vendem a uma clínica especializada os seus micróbios, que serão revendidos aos leitores da imprensa cor-de-rosa: estes compram herpes, gripes e mesmo outras pestilências pouco recomendáveis para ficarem iguais aos seus inspiradores.
Da abordagem da doença psíquica da dependência do mito para a ilustração visual do adoecimento e a sua representação física e explícita é apenas um passo – ou não estaríamos a falar de um Cronenberg… É então que o orgânico humano, a sua impureza e os seus jorros de sangue emporcalham o branco antisséptico do admirável mundo novo de “Antiviral”, que parece atirar o espectador para dentro de um laboratório.
Esta ácida leitura da “mitologia” dos famosos e da indústria das celebridades extrapola frequentemente os limites da bizarrice e do visualmente desagradável. E para preencher uma história densa e complexa, envolvem-se espionagem empresarial, paranoia, homicídios, espancamentos, envenenamentos – num mundo gélido e sem qualquer fonte de calor humano ou sombra de escrúpulo e solidez moral. E no qual nem na morte se encontrará descanso…
Se Brandon Cronenberg tem intenções de se demarcar estética e tematicamente da pesada (no sentido autoral) herança paterna, terá de fazer uma comédia romântica: “Antiviral” é um exemplar de transmissão genética sem escalas.
O Melhor: a escolha da temática e a forma inusitada de abordá-la
O Pior: a lentidão em alguns momentos é excessiva e retira um pouco o impacto da história.
| Roni Nunes |

