As consequências das guerras não se contabilizam apenas pela quantidade de mortos e de estragos materiais – o que no caso de Sarajevo, cidade esmagada pelos sérvios com um cerco de sete anos nos anos 90, não são nada desprezíveis. Os lugares devastados pela guerra herdam também um número considerável de órfãos (as “crianças” do título original) que crescem sem tutela afetiva ou financeira num país economicamente arruinado. Sem perspetivas e a um passo da delinquência, são jovens agressivos e anti-sociais.
A realizadora bósnia Aida Begic (vencedora da Semana da Crítica no Festival de Cannes em 2008 com a sua primeira longa-metragem, “Snow”, e que fez parte com este trabalho da seção A Certain Regard em 2012) faz um retrato desta perspetiva pouco usual ao tratar do seu país utilizando o dia-a-dia de um casal de irmãos órfãos. Ela (Marija Pikic), mais velha, totalmente entregue a um trabalho exaustivo – que tanto serve para sobreviver quanto para “esquecer a vida”, como ela diz a certa altura. Já o irmão, ainda adolescente, simplesmente não consegue tomar um rumo, vivendo a ameaça permanente de ser expulso da escola e retirado da casa da irmã – para ser levado para um orfanato.
O retrato visual dessa Sarajevo esmagada pelo peso do passado não é de uma cidade ensolarada e orgulhosamente reerguida das cinzas, como muitas vezes se quer fazer crer. Com uma simbologia naturalista, Begic constrói um filme sombrio e cinzento, marcado por chuva, neve e noite – que dão conta do estado de espírito dos protagonistas e o relacionam ao contexto alargado da própria sociedade onde vivem. Além da dura herança, os bósnios pobres convivem com a opressão de novos líderes políticos bem pouco inspiradores (para dizer o mínimo…).
No todo, é um filme simples e eficaz, que funciona bem como um retrato daquilo que quis enquadrar. Por vezes, especialmente no final, esperava-se um pouco mais de audácia – até porque deixa demasiado no ar a solução de certas situações que tinha criado. Destaque também para a bela interpretação da atriz Marija Pikic, em torno da qual gira todo o filme.
O Melhor: a simplicidade de intenções e a eficácia ao concretizá-las
O Pior: por vezes poderia ser um pouco mais audacioso e o final não é inteiramente satisfatório
| Roni Nunes |

