(com spoilers)
Para se fazer poesia no cinema não é preciso gastar toneladas de dinheiro e esta é uma lição que nunca será demais repetir aos megalómanos que confundem beleza com parafernália high tech. A magia do cinema surge em todo o seu esplendor quando alguém aparece com um pequeno projeto cujo alcance emocional e existencial é largamente superior àquilo que foi gasto para o fazer.
Neste caso devem ter sido tostões: a partir de algumas fotos e uma fita de VHS encontrados numa lixeira em Madrid, o realizador Sérgio Oskman reconstrói a história dos Modlins – utilizando para isso apenas um fundo branco ou preto onde exibe as fotografias, um pequeno trecho do tal vídeo e uma voz em off.
De acordo com a reconstrução de Oskman, os Modlins foram uma família formada por um ator rigorosamente falhado na sua busca de sucesso em Hollywood, uma artista plástica que nunca vendeu uma obra e o filho do casal.
Se alguém algum dia se lembrou de perguntar o que está por trás da vida de um “extra”, aqueles atores que têm uma aparição de segundos num filme, eis aqui um exemplo particularmente tocante do que teria acontecido a um deles. Elmer Modlin aparece na cena final de “A Semente do Diabo”, quando Mia Farrow descobre que o seu bebé foi entregue a um culto satânico. Não lhe valeu sequer o nome nos créditos – e após uma vida em pequenos anúncios mal pagos Elmer e sua família acabam por se refugiar em Madrid, onde vivem enclausurados ao longo de 30 anos.
O filme funciona como uma analogia simples, mas de grande alcance: a frenética vida de cada um, com a sua luta seja pelo que for, pode terminar assim, numa lixeira onde, por acaso, alguém resolveu pegar os seus últimos restos e transformá-los numa memória. Neste retrato da transitoriedade irremediável da vida humana, a última cena é particularmente bela: no meio dos escombros do apartamento vazio após a morte do último Modlin, o cineasta descobre uma estátua de duas cabeças, que havia sido o orgulho da sua artesã e o do seu único fã…
O Melhor: fazer imenso com quase nada
O Pior: nada
| Roni Nunes |

