A meio da visualização de “Arraianos” tive uma epifania: o mesmo movimento de reação à crise do capitalismo que faz com que em determinadas culturas as pessoas se virem para fundamentalismos religiosos que parecem defender valores que se opõem a ele, são os mesmos que em ambientes ocidentais urbanos fazem com que haja um ressurgimento da romantização do campo e dos seus conhecimentos. Assim, mais do que uma preocupação por um mundo que está a desaparecer (e já está assim há algumas décadas), há uma recordação de valores de familiares que saíram das aldeias e vieram para a cidade e a ideia de que estes e esta vida era melhor do que a que temos agora nas cidades em plena crise financeira. Se no séc. XVIII se encenavam peças em que as vidas amorosas de pastores e pastoras faziam as delícias da aristocracia, agora são feitos filmes em que os “bons velhos tempos” da comunidade rural, próxima, auto-suficiente e cheia de saberes esotéricos, são apresentados em festivais para uma elite cultural urbana.
Se há algo em “Arraianos” que lembra a “La voie lactée” de Buñuel, com os seus diálogos espirituais e dúvidas morais, a inserção num contexto rural e momentos desconexos afastam-no. Essa é uma das grandes críticas do filme, a sua inconstância, não a nível dos tempos utilizados, mas do tom utilizado. No início da sessão, Eloy Enciso, o realizador, indicou que o pretendido era documentar não só o lado físico, mas também o espiritual de uma comunidade fronteiriça do interior da Galiza. O resultado é um filme que parece indicar que os homens são forças passivas ou destruidoras e que as mulheres são a salvação do mundo, que a língua galega é um ponto de resistência à influência espanhola e que há forças nos bosques que nos querem mal. Acho. Porque no meio da confusão do romantismo e da pretensa profundidade, o filme perde-se.
A nível técnico há-que referir a iluminação fabulosa das cenas de dia, mas que falha nas nocturnas. A fotografia tem momentos bonitos, mas falta-lhe coesão, principalmente nos planos de fogo.
O Melhor: A luz.
O Pior: A confusão de ideias.
| João Miranda |

