“Fogo” é um filme sobre uma pequena comunidade na ilha com o mesmo nome que, segundo a sinopse, é obrigada a sair por causa da sua deterioração. “Segundo a sinopse” porque nunca nos é dito no filme e apenas uma das casas que mostram parece estar mais periclitante. Vemos então as conversas e as ações de três dos habitantes, a lembrar tempos melhores e a tentarem decidir-se entre ir ou ficar, depois de anunciada a partida do último ferry.
Foram precisas seis pessoas para escrever este argumento: três que o assinaram e três que ajudaram, segundo os créditos finais. Para qualquer um que veja o filme, isto parece espantoso, já que esta crítica terá possivelmente mais palavras que o filme todo e não acontece verdadeiramente nada no ecrã. Talvez seja tão difícil não dizer nada em poucas palavras que só trabalhando em grupo e com a ajuda de mais pessoas se consiga fazê-lo.
Se a imagem é fabulosa, com uma fotografia exemplar, a grande falha do filme está na sua contenção e na falta de resolução. Não que isso seja necessário num filme, “Meek’s Cutoff” de Kelly Reichardt conseguiu mostrar como se pode fazer um filme sobre um elemento de uma história maior e não dar resolução a essa história onde está incluído, mas “Fogo” é demasiado contido e não se vê qualquer transformação nas personagens ou na situação. As representações também não são brilhantes, confundindo tiques e caretas com profundidade e tentando sempre criar uma tensão que falha miseravelmente.
Talvez por causa da imagem, das técnicas narrativas e da recusa em assumir uma narrativa verdadeira este filme possa ganhar algum prémio, o que não quer dizer que seja um filme que tenha público fora dos festivais (e mesmo nesses pode ser difícil encontrar público que não seja o júri!)
O Melhor: A fotografia.
O Pior: A contenção, o não dizer nada.
| João Miranda |

