Depois do 15 de março, por várias vezes os espanhóis têm saído à rua, manifestado-se contra as medidas neoliberais e enfrentando a repressão policial. Sylvain George, assim que soube do que se passava nas ruas de Madrid, resolveu documentar o que se estava a passar na Portal del Sol. “Vers Madrid” é o resultado.
Já muitas vezes se tentou filmar uma revolução. O ano passado, a mostra do documentário português Panorama dedicou-se às dezenas de filmes que foram realizados sobre o 25 de Abril. Também o ano passado, no Doclisboa foram apresentados pelo menos dois filmes sobre a Primavera Árabe. Se normalmente resultam filmes emocionais (nem sempre emocionantes) e por vezes ideológicos, agora, com o horror à política (não, não é uma palavra feia) que tanto caracteriza a nossa sociedade, acabam apenas por fazer parte do espectáculo alienante, como o definiu Debord.
“Vers Madrid” é um trabalho em progresso, tanto assim que de um dia para o outro a sua duração passou de uma hora para mais de duas. Sylvain George é o primeiro a admiti-lo, mas ter de estar duas horas a ver “trabalho em progresso” de alguém completamente apaixonado pelo que vê, mas incapaz de assumir uma posição crítica ou ideológica sobre o que se passa ou sem sentir a necessidade de explicar o que protesta o movimento, torna-se confuso e aborrecido. Que o digam as várias pessoas que saíram a meio e as outras tantas que ouvi sair a protestar.
Documentar é importante, mas um filme (mesmo um documentário) implica que haja uma certa interpretação das imagens, não basta captá-las e intercalá-las com a arquitetura. Ainda mais um filme político. “Vers Madrid” é um trabalho em progresso, mas ainda tem muito que progredir.
O Melhor: Algumas das intervenções, verdadeiramente políticas, sobre os perigos da revolução e sobre o feminismo, ver os esforços de encontrar formas de organização alternativas.
O Pior: Os planos e planos de espectáculo ou de fachadas; a falta de crítica e de escolha política consciente; a duração.
| João Miranda |

