Portugal está apaixonado pelo seu interior que desaparece. Se durante anos a desertificação do interior era material para um apontamento no final do noticiário, encaixada entre o animal de estimação que faz acrobacias e as notícias do desporto, agora, com a diligência de um etnógrafo interessado em registar os costumes de povos ameaçados pela modernidade, o cinema documental parece tê-lo descoberto. Este é o segundo filme da Competição Nacional desta edição do Doclisboa que se dedica a este tema e que o tenta fazer como uma recolha etnográfica de atividades e de música.
Regoufe, uma aldeia do concelho de Arouca com pouco mais de 150 habitantes, é a aldeia que Cláudia Alves, a realizadora, filmou. Depois de uma época em que as minas na zona foram exploradas e depois do seu fecho oficial em 1990, Regoufe é essencialmente uma aldeia dedicada à agricultura e ao pastoreio de cabras. Para além da desertificação, um dos problemas que afeta a população são os ataques de lobos, dos quais vamos tendo indicações pelo desaparecimento de várias cabras e pelo aparecimento de algumas feridas. Entre as várias conversas que são filmadas, são cantadas músicas da região.
As comparações entre este filme e “O Pão que o Diabo amassou”, o outro filme com o mesmo tema na Competição Nacional, são inevitáveis: ambos focam o mesmo tema, ainda que em regiões diferentes, e ambos se esforçam por ilustrar a música da zona, mas essas comparações acabam por ser menos favoráveis para “Sobre Viver”. Se este segundo filme mostra uma maior atenção à fotografia, acaba por não conseguir furar a superfície que se apresenta nesta comunidade, como o consegue fazer o outro. O que não quer dizer que este seja um mau filme, apenas que se tornam mais óbvias as suas lacunas e que estas mostram que não foi rompida a aparência e que nos ficámos por uma série de postais sobre a vida rural e não ficamos mesmo a conhecer o problema que a afeta. Para todos os efeitos, até os ataques do lobo poderiam ter sido usados como um MacGuffin, criando uma tensão que podia percorrer o filme, mas acabam por desaparecer do filme sem qualquer resolução.
O Melhor: a fotografia.
O Pior: Não foi capaz de furar a superfície da aparência nem, em alternativa, construir uma narrativa que nos prendesse.
| João Miranda |

