Nascer homo ou bissexual entre as duas guerras significa atravessar épocas de diferentes atitudes sociais perante isso: do conservadorismo inicial, à loucura dos anos 60 e 70, até ao reconhecimento nos anos 80 e 90. Numa altura em que a sociedade parece aceitar melhor estas identidades sexuais, qual a importância de um filme que documenta as vidas destas pessoas? Quando a referência à homossexualidade ainda é usada de forma pejorativa, na camaradagem masculina ou em resposta a rejeições de avanços amorosos e quando a personagem caricaturada do homossexual enche os media, parece que, anos depois, e apesar de toda a nossa “sofisticação”, bastante.
Sébastien Lifshitz tenta documentar, a partir de entrevistas e de imagens de arquivo, as vidas de algumas destas pessoas que nasceram entre as duas guerras e foram encontrando formas de se definir e manifestar, por vezes lutando, por vezes fugindo, contra uma sociedade em transformação. Tentando mostrar e esclarecer os percursos destas pessoas, é o período final, o do envelhecimento, que é o mais emocional, o mais comovente. A franqueza e a clareza que a idade traz permite que momentos de epifania sejam contados de forma desarmante e até a mais forte das personagens se emociona encontrando a casa da sua infância.
É uma história da homossexualidade no século XX contada pelas pessoas que a viveram e fizeram, mas também um retrato emocionante do que é envelhecer.
O Melhor: A franqueza e a intimidade das entrevistas; a estrutura; o uso do arquivo.
O Pior: Parece que o realizador se focou demasiado numa região, não mostrando variedade suficiente.
| João Miranda |

