Muito antes da crise económica de 2008, o mundo rural já se encontrava ameaçado pelo alastrar da monocultura global, essencialmente urbana e dominada pelo mercado. Se no século XVIII havia um romantizar da vida campestre e dos camponeses, no século XX esta mostrou-se uma forma de vida dura e trabalhosa. Mesmo com os esforços do Estado Novo de construir um ideal de um Portugal rural “honesto”, a fuga das pessoas para as cidades e para os latifúndios alentejanos à procura de formas de subsistência transformou o interior nortenho do país.
Em “O Pão que o Diabo amassou” (Le Pain que le Diable a pétri), José Vieira regressa à terra do seu pai para tentar documentar as suas origens, ao mesmo tempo contando a história que se repete vezes sem conta num interior que desaparece pouco a pouco.
Sempre acompanhado pela música local, não o folclore inventado pelo Estado Novo, mas as canções que ainda hoje se cantam, passadas entre gerações, o filme entrevista algumas das 56 pessoas que moram na pequena aldeia de Adsamo, perto de Viseu. Os temas vão desde a fome que se passou nos anos 30 e 40, a fuga para as cidades, para os complexos fabris, para o Alentejo e para outros países, nem sempre de forma legal, até à desertificação que se sente agora, passando pela Guerra Colonial e pelas dificuldades sentidas durante a Ditadura.
Durante as entrevistas e a música, vemos o dia-a-dia da vida agrícola, o arar, o semear, a ceifa, a colheita, o pisar da uva, todas as matizes de uma vida dura, enquanto se fala da liberdade de não ter de trabalhar para outro.
O filme acaba por ser um retrato de alguém que estava curioso pelas suas raízes e que acabou por se apaixonar por elas.
O Melhor: A candura de algumas pessoas entrevistadas.
O Pior: Não se percebe qual o contacto com os mass media, tornando difícil perceber se isto é porque este não existe ou se há um romantizar por parte do realizador.
| João Miranda |

