doclisboa’12: «Milos Forman, What Doesn’t Kill You…» por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

Filme inteiramente centrado no valor do biografado em si próprio, neste caso um realizador emblemático – um homem que teve que abandonar a sua terra natal e acabou por ser vencedor de dois Óscars (por “Voando sobre Um Ninho de Cucos” e “Amadeus”).

Em termos de estilo extremamente tradicional, “Milos Forman, What Doesn’t Kill You…”, vai vinculando as lembranças do realizador com enxertos do presente – andanças com os netos, trabalho com os filhos, encontro com velhos amigos. Acrescenta-se ainda alguns depoimentos de atores que trabalharam com ele. Dá para dividir o filme em quatro níveis: o das lembranças da infância, a memória dos cineastas franceses dos anos 60, a “reconstrução” da sua obra e a sua redescoberta da família após o afastamento dos seus primeiros filhos por vicissitudes políticas.

A primeira parte intercala um passeio de Forman com seus netos pela sua terra natal, onde vêm à tona as lembranças particularmente dolorosas do desaparecimento dos seus pais sob os nazis. O do pai deu-se quando tinha oito anos: estava na escola foi quando foi chamado lá fora, encontrando o pai escoltado por dois homens. Este disse ao filho que não se preocupasse, entregou-lhe uma carta e este foi contente para casa, sobretudo por não ter de ir mais escola nesse dia. Foi a última vez que o viu. O desaparecimento da mãe não foi menos triste, dois anos depois: acorda-se ao meio da noite, levam-na sem sequer permitir que ela se despeça e ele fica só na casa, com dez anos. Anos mais tarde será concedida uma “audiência” com a mãe, durante 15 minutos, na prisão. E também será a última vez que a vê.

O trauma nazi foi substituído por outro – o da ditadura comunista. As humilhações sofridas pelo realizador durante o regime iriam marcar toda a sua carreira – e será o tema implícito de vários dos seus filmes – incluindo o alegórico e bem-sucedido “Voando Sobre o Ninho de Cucos”.

Outras das lembranças de Forman, particularmente interessantes, são sobre o período em que ainda dava os seus primeiros passos na ex-Checoslováquia e mobilizou inesperadamente o apoio dos grandes realizadores franceses dos anos 60. Entre as histórias desta época que conta, é particularmente tocante a sua despedida e os últimos momentos da vida de François Truffaut, morto em 1984, já que foi das últimas pessoas a vê-lo com a vida. Dos depoimentos, destaques para o de Woody Harrelson e de F. Murray Abraham, mais sinceros do que protocolares.

Sem grandes inovações, cumpre o esperado e lança algumas luzes sobre a vida e a obra do cineasta. É óbvio que uma vida já longa e uma obra idem, fica difícil escapar a uma certa superficialidade. 
 
 
 Roni Nunes
 

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