Pesadelos kafkianos nas malhas da burocracia judicial nada têm de inéditos, o que não quer dizer que o realizador Vincent Garenq não alcance com este “Présumé Coupable” um resultado absolutamente asfixiante. Sem detalhar pormenores da história, basta dizer que o filme inspirou-se num enorme escândalo judicial ocorrido em França no ano de 2005. Quatro anos antes, um grupo de pessoas foi posto na prisão acusado de pedofilia – e o filme acompanha a vida de um deles, Alain Marécaux, autor da autobiografia na qual a obra se inspira.
Não é difícil adivinhar a sorte do protagonista a partir do momento em que é arrancado de casa em plena madrugada e posto na prisão sob acusações de crimes hediondos. O que não quer dizer que o filme perca impacte por causa disto. Muito pelo contrário: “Présumé Coupable” vai acompanhando de forma objetiva a supressão gradual de todos os pilares da vida do protagonista, criando uma narrativa terrivelmente tensa, com um resultado tão angustiante que faz o espetador desejar elipses – que nunca são concedidas. Como não poderia deixar de ser, o trabalho de Phillipe Torreton como protagonista é extraordinário, lhe rendendo a quarta nomeação ao César (venceu uma vez, em 1998, com “Capitaine Conan”, de Bertrand Tavernier).
A história, para além de ser inspirada num caso real, tem o agravante de que o agente opressor não é nenhum estado totalitário, mas sim o sistema judiciário de uma democracia avançada. Mas Garenq acerta em optar pelo registo sob o ponto de vista da vítima, preterindo-o a uma análise exaustiva dos mecanismos da justiça francesa – que, de resto, poucos efeitos práticos teriam. Após o caso, o governo francês anunciou “medidas”, que obviamente foram esquecidas assim que os holofotes da imprensa desviaram-se em outra direção. Condenação dos responsáveis pelo sistema judicial? Ninguém é maluco para abrir tal caixa de pandora…
Um filme forte, que cria uma sensação desagradável que perdura para além do seu término.
O melhor: o ritmo intenso, a escolha do tema e o excelente trabalho de direção
O pior: um plot que durante muito tempo não concede escolhas, o que por momentos torna o filme excessivamente pesado
| Roni Nunes |

