Pierre Schoeller produz a sua obra como se a existência do filme se bastasse a si próprio. Mais do que contar uma história, é suficiente ilustrar de forma realista o seu objeto de análise: os meandros do poder. Esta ligeira arrogância tem sua razão de ser: o registo do verdadeiro funcionamento dos mecanismos de tomada de decisões e, principalmente, com o foco em quem as toma, são raros – e o cineasta continua aqui a tradição com poucos herdeiros do grande Costa-Gavras, realizador de uns tantos clássicos políticos dos anos 60, 70 e 80.
Longe de imposições industriais que o obrigariam a criar um vínculo moral com as instituições estabelecidas – e, torna-las, ao fim de tudo, desculpáveis – o realizador passeia livremente pelo exercício do poder através do dia-a-dia do Ministro dos Transportes francês.
O “passeio” começa pela apresentação nada ortodoxa do seu protagonista: um sonho erótico altamente refinado, que termina com uma mulher nua a ser engolida por um crocodilo…! A partir daí, é um verdadeiro banho de imersão – cortes frenéticos, câmara móvel, ângulos fechados.
Primeiro um acidente de trânsito com vítimas infantis exige da sua assessora um discurso adequado e de si próprio um ar de consternação para as câmaras. Mas este “pequeno” contratempo logo é completamente absorvido por outro muito maior e mais relevante: o ataque proveniente do Ministro das Finanças que despoleta um jogo frenético de disputas e que envolvem, como pano de fundo, a explosiva privatização dos caminhos-de-ferro franceses.
Mas, talvez para evitar um aspeto de “visita guiada” aos bastidores da política, Schoeller cria caminhos tortuosos para ir revelando, aqui e ali, pormenores obscuros ou singelamente reais dos corredores palacianos. O que faz com que, por vezes, as opções do argumento não primem pela clareza, utilizem personagens mal apresentados e com um ritmo que torna muitas vezes difícil acompanhar as suas histórias de gabinetes.
O que funciona de forma magnífica em “L’Exercice de L’Etat” é que em nenhum momento o filme perde-se com demagogias ou com julgamentos. O realizador concede ao seu protagonista um caráter titubeante, alguma fragilidade e algum sentimento. Mas não exagera: as suas fraquezas e limitações transgridem facilmente a tênue linha que, no jogo político, os separa da vilania do “salve-se quem puder”.
Os sentimentos do ministro ficam expressos na visita ao local do acidente, quando parece um pouco perdido a olhar para os cadáveres das vítimas, ou na simpatia que demonstra para com o seu novo motorista. Não será grande coisa para lhe reforçar o caráter humano – mas é muito mais do que concede aos outros: presidente, primeiro-ministro e outros ministros são todos apresentados como peças de um tabuleiro que assentaria bem na mais terrível descrição de Maquiavel.
O Melhor: a forma como aborda o seu objeto de análise
O Pior: a escolha por um argumento tortuoso, que em certos momentos torna o filme confuso
| Roni Nunes |

