«Le cochon de Gaza» (O Porco de Gaza) por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

“O Porco de Gaza”, que estreia em Portugal em janeiro, é uma espécie de “primo cómico” de “Les Files d’Autres”, exibido nesta edição da Festa do Cinema Francês, já que ambos abordam rigorosamente a mesma temática: o conflito Israel/Palestina. Filme de estreia de Sylvain Estibal, vencedor do Cesar de Melhor Primeiro Filme.

A história passa-se na região de Gaza, onde a má sorte crónica do pescador palestiniano Jaffar (Sasson Gabai) se transforma em pesadelo – no dia em que a sua rede trás para o seu barco uma amaldiçoada criatura para os muçulmanos (e judeus): um porco. A partir daí, está lançada a confusão – com o herói a assistir a sua miséria económica a ser transformada em tragédia política.

Jaffar e suas desventuras são uma recriação dos eternos arquétipos do burlesco: história de um sujeito simpático, inocente, cujas tentativas de resolver os seus problemas vão gerando uns desastres atrás dos outros. 

Estibal corre riscos ao banalizar e a tornar leve o sofrimento da sua personagem quando o contexto histórico, político e social que lhe serve como pano de fundo ainda é bastante real e explosivo. Neste sentido, talvez o filme consiga evitar males maiores ao prescindir do uso de um antagonista antipático muito delineado – pois concede até a alguns soldados israelitas (ainda que não a todos) algum grau de simpatia.

Com o recurso do porco e o absurdo que o cerca, “O Porco de Gaza” acaba por ser daquelas obras que consegue rir de toda a gente sem enfurecer ninguém – ainda que frequentemente beire a insolência desagradável ao brincar com o ódio dos jovens palestinianos e a realidade do recrutamento dos mártires suicidas, por exemplo. 

Algumas cenas são hilariantes: o soldado que discute telenovela brasileira com a mulher de Jaffar, outro que se sentia bem a tomar o remédio milagroso que Jaffar dizia ter (que na verdade era algo bem mais “sinistro”…) e, principalmente, a sequência de gags geradas pelas descoberta do porco dentro da casa do protagonista por sua mulher.

Tipicamente fica-se à espera de ver quando a fortuna do nosso herói vai se reverter – e é precisamente neste ponto que a obra atinge seu nível mais baixo. Se até aqui Estibal tinha o seu material sobre controlo, criando uma história cómica e interessante, na hora de a resolver ameaça descambar completamente e cair no pastelão, com correrias e parvoeiras que diminuem um bocado a qualidade integral do filme. Para piorar, não engana o espetador quando este está á espera de uma mensagem de união dos povos tão melodramática quanto palerma.

Se estruturalmente não é de grande originalidade, é bem filmado e tem situações divertidas que cheguem. 

O Melhor: os diversos momentos cómicos, para além do pano de fundo original
O Pior: a resolução da história, com suas correrias e sua lição de moral 
 
 
 Roni Nunes
 

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