Em 1997, a pensadora francesa Viviane Forrester publicou um livro de impacte na altura chamado “O Horror Económico”. Nesta obra analisava o processo de desaparecimento invisível mas imparável daquele que é um dos pilares fundadores da sociedade ocidental: o emprego. Segundo ela, o que tem se tentado manter escondido da população é uma verdade insofismável: o atual modelo económico não tem qualquer hipótese de garantir a manutenção dos empregos – e a marginalização progressiva de cada vez mais altas taxas da população tem como objetivo a escravização ou a eliminação daquele que não for útil.
Vale a pena esse preâmbulo para relacionar com aquilo que “De Bon Matin” tem de melhor: o seu alcance em termos de leitura sociológica e de conexão com uma crise que, depois de 15 anos da publicação do livro de Forrester, não tem deixado de lhe dar razão.
O filme é a história de um processo de desestruturação emocional e existencial que, mais uma vez, está ligada ao Satã dos novos tempos, os banqueiros – e, num âmbito mais geral, à sociedade capitalista. Baseado em factos verídicos, acompanha a rotina de um pacato bancário (Paul, vivido por Jean-Pierre Darroussin) de uma cidade do interior francês que, num determinado momento, decide cometer um ato “de redenção” absolutamente brutal.
O realizador Jean-Marc Moutou optou por contar a história em flashbacks e com pelo menos duas tramas paralelas: lembranças de um passado mais remoto, onde dinamiza o processo intercalando consultas de Paul a um psiquiatra, e os momentos imediatamente anteriores à consecução do seu ato.
Como já se sabe o fim da história, o foco vai para a análise do “como” o protagonista é levado a fazer o que faz. O triunfo de “De Bon Matin” é que não se avança aqui com explicações simplistas e muito menos interpretações psicológicas. Trata-se de um processo, não de uma tomada de decisão repentina, onde nem tudo é simples como parece: a relação de Paul com a esposa e o filho adolescente, por exemplo, tem seus maus momentos, mas não é muito diferente do que ocorre com a grande maioria das pessoas; ao mesmo tempo, ele tem uma contribuição ativa numa organização filantrópica; e, por fim, também tem amigos, embora em processo de isolamento.
É em termos profissionais que começa o seu inexorável caminho para baixo e é onde o filme também ganha corpo numa violenta crítica social: depois de muitos anos a dedicar-se ao trabalho, vê-se, subitamente e sob a forma de rebaixamento moral, sendo posto de parte por um sistema que decidiu que ele já não é mais útil.
O Melhor: a sua sintonia com os tempos que correm
O Pior: a estrutura utilizada muitas vezes baralha a história e tira um pouco de impacte
| Roni Nunes |

