13ª Festa do Cinema Francês: «Journal de France» por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

Documentário que intercala as calmas deambulações do cineasta e fotógrafo Raymond Depardon pelo interior francês com as suas inquietas imagens de arquivo – aliás riquíssimo, já que ele foi um atuante repórter fotográfico que percorreu o mundo desde os anos 60.

Como muitos registos documentais, oscila entre a calmaria e a poesia (nos melhores momentos) dos seus planos contemplativos com a força e a intensidade de seus pontos altos. Enquanto Depardon placidamente descobre o seu país, do qual se ausentou por vezes durante anos, com um antiquíssima máquina fotográfica, vai ao mesmo tempo reconstituindo uma espécie de “memória” mundial através de episódios marcantes – guerras civis na Venezuela, em países africanos diversos, a invasão da ex-Checoslováquia pelos russos, a libertação de Mandela. 

Aqui, o destaque vai para um trecho de enorme intensidade envolvendo a arqueóloga Françoise Claustre, num caso famoso em França nos anos 70. Abandonada pelo governo francês depois de ter sido feita refém na guerra do Chade, onde permaneceu cativa durante três anos, faz um comentário dramático e comovente diante da câmara de Depardon – que conseguiu uma entrevista com ela depois de estar dois anos entre os rebeldes. A sua divulgação clandestina em França até atingir os telejornais causou grande repercussão no país e obrigou o governo a agir para a libertar. 

É também um filme cujo tema é a própria arte da fotografia e do processo fílmico – com destaque para uma cena junto da equipa de filmagem de Eric Rohmer, quando este realizava “O Raio Verde”, em 1986. E ao cinema e a fotografia estão ligados as noções de curiosidade – e ao que os realizadores vinculam a sua arte: uma enorme paixão pelo mundo, pelas pessoas e pelos lugares. Dos muitos rostos anónimos que movimentam-se à frente da sua câmara, Depardon realiza o seu “sonho” voyeurístico ao entrevistar uma mulher perseguida ao acaso e que acaba por contar a sua história em frente à objetiva.

Não é de todo original, nem sempre vibrante e a única forma de se obter alguma coerência temática é lembrar-se que se trata de uma homenagem de Claudine Nougaret ao seu marido e parceiro de trabalho, o que não deixa também de ter a sua beleza. É só sob esta perspetiva biográfica que se justifica a inclusão de imagens de hospitais psiquiátricos e dos retratos da relação entre o Estado (francês) e os cidadãos. De qualquer forma, depois de pensar sobre ele, “Journal de France” vai se revelando como um filme com muito mais conteúdo do que parece à partida.

O Melhor: A grande quantidade de questões que acaba por abordar
O pior: Alguns momentos mortos e uma seleção de material um tanto aleatória
 
 
 Roni Nunes
 

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