Filme extremamente incomodativo este “Beauty” (que é um filme bem feio, ao contrário do que o seu título sugere), vencedor do Queer Palm no Festival de Cannes de 2011, e com direito a uma menção honrosa neste Queer 16.
A história de um homem de meia-idade, aparentemente resolvido, mas escondendo uma vida dupla da sua família e amigos, perfura nos sítios certos, não haja dúvida, culminando numa das cenas mais surpreendentes e perturbadoras vistas no último ano. Para tal contribui também uma interpretação precisa de Dean Lotz no papel principal – mais uma personagem complexa presente neste festival, a cometer atos incontestavelmente errados.
Tendo também como palco uma África do Sul ainda marcada por traumas do passado, o filme aproveita ainda para pôr no mesmo saco a temática do racismo. A mistura é bem aceite; o que pode ficar a faltar em “Beauty” não é bem uma resolução mais concisa da narrativa e de todas as suas pontas (o filme acaba minimamente “bem” até), mas sim o arrastar desta narrativa a certos pontos, até depois do seu “grande clímax”. E claro, por incomodar tanto, torna-se bem mais fácil respeitá-lo do que amá-lo genuinamente…
| André Gonçalves |

