É uma história simples, repetida, mas com uma vitalidade impressionante dada pela argumentista e realizadora Aurora Guerrero, em mais uma estreia nas longas-metragens. Duas “chicanas” (Yolanda-“Mosquita” e Mari) de 15 anos travam conhecimento. Yolanda, a melhor aluna da turma, sempre foi ensinada a preocupar-se com os estudos. Já Mari, teve desde cedo que garantir o sustento da família, e tem mais dificuldades na escola. Yolanda decide ajudar Mari a passar às disciplinas em que tem mais dificuldade, sob o risco desta última ser expulsa – isto depois de Mari a ter salvo de um incidente. Um jogo de interesses aparente depressa se desenvolve numa amizade para a vida.
Um dos principais trunfos de “Mosquita Y Mari” é nunca ceder a pressões “queer“, por assim dizer. Guerrero não tem pressa, não lhe interessa mostrar o que outros mostram, sabe que a sua história importa, e sabe acima de tudo tirar partido dos mais ínfimos detalhes que lhe foram surgindo com o desenrolar da narrativa. Esta é afinal uma história mais de cumplicidade e intimidade profunda entre duas adolescentes que de um amor fugaz, em que nem os “slo-mos” lhe vêm retirar força, antes pelo contrário – há aqui um jogo de tempo e de expectativas (de ações por cumprir, de um longo caminho a percorrer…) que assenta muito bem nestes interlúdios. E depois temos aqui duas performances (de Fenessa Pineda e Venecia Troncoso) capazes de imprimir um fôlego extra ao casal de protagonistas e fazer com que tudo isto importe mais para o espectador.
Perante o negrume que tem sido a competição do Queer deste ano, já fazia falta um filme capaz de nos pôr um valente sorriso na cara á saída da sessão. “Mosquita Y Mari” é esse filme, e seria um justíssimo vencedor do Prémio do Público, não fosse haver aqui um filme brasileiro de apelo ao povo… Não sendo a proposta mais original de sempre (estando até bem longe de ser o mais original dos 10 títulos em competição para Longas-Metragens) é sem dúvida um raio de luz, e com muito cinema para compensar a sua “modéstia” em contar uma história já contada um milhão de vezes.
| André Gonçalves |

