A 16ª edição do Queer continua a surpreender na sua seleção, e na coragem das suas escolhas de títulos em competição. Podemos mesmo estar perante a melhor seleção que este crítico já acompanhou no Queer, a continuar assim…
“She Monkeys” é mais uma proposta altamente original e criativa que o certame nos traz, capaz de sair do armário “queer” e a merecer uma distribuição comercial, nem que seja numa sala poeirenta no centro da cidade. Numa estética que pessoalmente me faz lembrar muita da crueldade e cinismo (e até uma forte carga simbólica pelo meio) que encontramos no “novo cinema grego” de Lanthimos e companhia, mas também será apropriadamente nórdica, acompanhamos duas jovens em competição. Existe desde logo uma forte relação de cumplicidade entre Emma e Cassandra, mas acima de tudo uma relação de controlo, como se estivéssemos a assistir a um treino de cães. Em paralelo, acompanhamos também o despertar da irmã mais nova de Emma, apaixonada pelo seu primo Sebastian, que obviamente não lhe corresponde (caso contrário, havia aqui pedofilia…).
A humanidade é toda aqui posta em casa, de certo modo, através de pontes incisivas, e também aí surgem ecos do tal cinema grego pós-crise… Isto tudo sob a alçada de uma realizadora que mostra logo na sua primeira longa-metragem a destreza e a segurança de uma veterana. Bem, não é que Lisa Aschan, de 34 anos, tenha propriamente caído de paraquedas no cinema (realizou mais 4 curtas-metragens, entre 2003 e 2007); mas este é de facto um filme extraordinário no seu controlo em contar a história que tem para contar.
Se houver alguma justiça, voltaremos a ouvir falar deste filme muito em breve…
| André Gonçalves |

