João Ferreira, programador e codiretor do Queer, dizia na apresentação que esta tinha sido uma das grandes surpresas desta edição. E não mentiu.
Tudo bem que ainda falta muita água para correr, mas aconteça o que acontecer, “Marina Abramović: The Artist is Present”, com o selo HBO, é um marco incontornável, capaz de converter céticos e leigos e de reconfortar fãs (e céticos e leigos, entretanto convertidos).
Por onde começar? Bem, talvez por dizer que apesar de não ser um filme propriamente “queer” (no sentido em que não há aqui uma relação homem-homem, mulher-mulher, “M-to-F” ou “F-to-M”), é um filme que transpira “queerness” em cada um dos seus minutos. A arte em si já é algo “queer”. Esta arte em concreto, de tão extrema que é, e por promover um ativismo e um manifesto sobre papéis de género e tudo mais, então preenche mais do que os requisitos essenciais para estar aqui.
Passando a Marina Abramović, bem, mesmo para quem não conheça o seu trabalho, é facil sentir-se imediatamente ligado. “A avó da arte performativa” fez algumas das peças mais controversas dos últimos 50 anos, sempre envolvendo desafios físicos e mentais. A sua exposição no MoMA (Museum of Modern Art) é parte retrospetiva da sua obra, parte integração de uma nova componente: “a artista está presente” é levado mais que à letra – Abramović permanece sentada 7 horas e meia por dia ao longo de três meses, sem nunca se levantar. E é sobre esta exposição que o filme se foca, numa espécie de “making of” alternado com biografia, sempre tentando escutar os dois lados da história.
Dito assim, parece até que estamos perante algo demasiado convencional para uma figura tão… fraturante. E podemos estar. Mas funciona. Deveras. O realizador Matthew Ackers de certo modo conseguiu captar o espirito da artista para as bobines, e nesse processo fez também ele arte (no seu sentido “real” de espelhar emoções e transformar pessoas), e conseguiu com que milhões possam sentir agora o efeito que sentiram aquelas privilegiadas centenas de milhares de pessoas que se puderam deslocar a Nova Iorque naqueles três meses… e isso é sem dúvida um feito a não menosprezar.
| André Gonçalves |

