Queer Lisboa 2012: «North Sea Texas» por André Gonçalves

(Fotos: Divulgação)

 

Não sei se é com a intenção própria de querer mostrar as “grandes armas” logo na altura em que o público estará mais disponível para ir ao Festival (no fim de semana). Ou se calhar sou eu que estou predisposto a adorar relações “karmico-frustradas”, quando bem retratadas. Em qualquer dos casos, podemos dizer que a competição de Longas-Metragens dificilmente poderia ter arrancado melhor este sábado, com dois filmes belíssimos, cada um à sua maneira (“North Sea Texas” e “Keep the Lights On”).

“North Sea Texas” é um retrato sensual e melancólico de uma era e um espaço que não tem propriamente grandes referências no cinema “queer” ou no cinema em geral (que me esteja a lembrar, pelo menos). Estamos na costa belga dos anos 70 e acompanhamos Pim, um jovem que vive com a sua mãe (outrora uma rainha da beleza; atualmente uma mãe desnaturada e uma mulher sem qualquer consciência das vergonhas que pode passar por continuar incessantemente a servir-se de isco para qualquer homem que passe por perto…) e o seu cão. Pim está a atravessar “A” fase em que terá que deixar o mundo das princesas, e confrontar-se com a sua sexualidade latente. Para isso, surge Gino, o seu vizinho mais velho e o seu primeiro grande amor. Mas Pim, como qualquer adolescente apaixonado, sonha muito. E desenha os seus sonhos. O espectador é assim convidado ele próprio a reviver uma fase que todos nós atravessamos, independentemente da orientação sexual. 

O ritmo é lento, mas sempre fluido. A atmosfera atinge níveis próximos do erotismo na sua contemplação constante do espaço e das personagens, e na subtileza relativa com que a narrativa prossegue e nos simbolismos envolvidos. No final, sentimo-nos magoados, tocados, e recordamos aquele ou aquela que escapou da primeira vez, e da qual mantivemos alguma recordação (ou não). Eis a magia da arte – como Marina Abramovic poderia dizer – o artista conseguir espelhar as nossas emoções, e tocar-nos no ponto certo, sem nos sentirmos propriamente manipulados. Este filme faz exatamente isso, e de uma forma incontestavelmente bela na sua execução. Bravo.
 
 
 André Gonçalves
 

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