Os cineastas norte-americanos que falam de política andam mesmo temerosos de uma guerra dentro das suas fronteiras. Ainda há alguns dias estreou comercialmente em Portugal o último trabalho de Oliver Stone, onde a coisa ia pela mesma via. A diferença é que aqui, nesta ressurreição de Kevin Smith depois de quase duas décadas de coma criativo, a guerra não é causada por nenhum “selvagem” estrangeiro, mas pelos extremistas que vivem no seu próprio território – e são, não convém negligenciar, norte-americanos cristãos e bem branquinhos.
Depois de sermos apresentados ao grupo do reverendo Cooper (Michael Parks), através de um protesto anti-gay e de uma menção numa aula – onde se fica a saber que até os neo-nazis os consideram excessivamente radicais (!) – entra em cena um grupo de três adolescentes à procura de sexo por meio da internet. A possibilidade surge através de uma mulher desconhecida de um lugarejo qualquer não muito longe. Mas o que os aguarda está além do que eles poderiam imaginar.
Não é a primeira vez que Smith mete-se em querelas religiosas e, quem tem idade para isso, há de se lembrar das polémicas que desencadeou com “Dogma”, que tinha Alanis Morrisette como Deus – para além de outras “blasfémias”. Talvez para se vingar, concede aqui o protagonismo aos fundamentalistas religiosos, daquelas terriolas sinistras do sul dos Estados Unidos, que ainda vivem no tempo da guerra santa e que não se importam em matar placidamente em nome do Senhor… Eles serão designados, pela polícia de intervenção, como uma “célula terrorista”, ou seja, um mal a abater de qualquer forma.
Em “Red State” Smith transita entre os erros e os acertos da sua procura pelo “efeito Tarantino” – ou seja, aquele que faz explodir cabeças enquanto desperta gargalhadas na plateia. Quando acerta, o riso é garantido; quando erra, gera cenas absurdas. Tal como no filme de Stone, padece do mal da verossimilhança: porque, afinal, um pequeno grupo de pessoas entrincheiradas numa igreja decide de uma hora para a outra fazer um ataque suicida contra uma esquadra de intervenção?
Quando a ação, aliás, ameaça tomar o controlo do filme, o realizador perde-se no seu próprio tiroteio, afinal é esta não é a sua especialidade. Mas quando retoma aquilo que sabe fazer melhor – diálogos inteligentes e situações cómicas – “Red State” volta a levantar voo. A explicação que o agente Keenan (John Goodman) dá sobre as “trombetas do Apocalipse” merece entrar para a história como uma das cenas mais hilariantes dos últimos tempos. De resto, toda a cena constitui no melhor do filme, expondo com sarcasmo todo o cinismo e o maquiavelismo das figuras governamentais. No todo, vale mais a intenção que a execução, mas consegue ser divertido, sinistro e violento ao mesmo tempo.
O Melhor: as “trombetas do Apocalipse” e todo o diálogo a envolver esta cena
O Pior: quando vira filme de ação
| Roni Nunes |

