MOTELx 2012: «Livid» por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

Três jovens decidem invadir uma antiga mansão, habitada unicamente por uma velha em estado de coma, à procura de um tesouro. Inicia-se aí aquele que talvez seja um dos mais genuínos filmes de terror desta edição do Motelx, com sua casa assombrada, ruídos estranhos, histórias trágicas de ancestrais misteriosos, vozes sussurrantes, cabeças de animais empalhados e brinquedos infantis igualmente sinistros.

O filme ressente-se de uma primeira metade algo vazia de tensão e significado. Está tudo certo na apresentação das personagens e das suas motivações para invadirem a casa abandonada, mas o argumento é algo negligente: o seu McGuffin até poderia ser um tesouro – mas quem é que se lembraria de o procurar numa mansão cheia de tralha completamente às escuras? Para além disto, não se está a construir um verdadeiro suspense enquanto se prolongam por minutos a fio um grupo de pessoas a perambularem no escuro sem que nada aconteça. 

Mas a coisa muda de figura a partir do primeiro acontecimento relevante (no minuto 54). Não é que, a partir daí, se sucedam acontecimentos trágicos/assustadores em larga escala que serão de alguma maneira explicados ou reconstruídos de forma direta pelos artifícios narrativos tradicionais.

O encanto e a originalidade do filme estão na opção, ao invés disto, por uma conceção onírica, que lhe permite planar placidamente acima do redutor universo das explicações. E aí, alternados com momentos de violência assustadores e brutais, o filme atinge raros níveis de beleza no género. “Livid” torna-se misterioso e sedutor, com uma inusitada e intensa atmosfera poética que o alçam a uma dimensão verdadeiramente existencial.

A reconstrução do passado é feita quase exclusivamente através de imagens e da sumptuosa música de Raphael Gesqua, embora, mais uma vez, o argumento não cumpra todos os seus preceitos – deixando as coisas desnecessariamente confusas para além do que deveria. Mas, para solucionar o problema, o filme tem magia suficiente para que se queira assisti-lo outra vez – ou, pelo menos, a partir do minuto 54…

O melhor: a história através de imagens
O pior: o argumento, algo negligente
 
 
 Roni Nunes
 

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