«The Loneliest Planet» (Um Planeta Solitário) por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)
 
Existem propostas cinematográficas que preferem situar o seu desenrolar em pequenos epicentros dramáticos que sacodem momentaneamente o rasto monocórdico do registo. É o caso de The Loneliest Planet. Linear em emotividade, essa espécie de trekking cinematográfico acompanha o relacionamento de um casal que oscila como os altos e baixos da sua caminhada pelas montanhas da Geórgia.
 
Se a opção não é pela intensidade, também não o é por uma narrativa linear. Não há história nem grandes expetativas, apenas um caminho que vai sendo construído – que tem nos seus planos americanos e nos seus enquadramentos triangulares as pistas para os dramas interiores que se desenvolvem. Dramas tão dolorosamente existenciais quanto miseravelmente rotineiros – mas em alguns momentos sucedidos de fato pela força que irrompe do imprevisível.
 
Esse fulgor direciona-se sempre ao mundo físico das personagens, seja pela ameaça da violência, seja pela erupção do desejo sexual – desde sempre o elemento transgressor por excelência, cujas centelhas ecoam sob o olhar impassível e esmagador da natureza – como de resto sublinha o belo trecho extraído do livro “A Hero of Our Time”, do chamado poeta do Cáucaso, Mikhail Lermontov.
 
Porque, no fundo, estes viajantes perdidos na imensidão do Cáucaso não conseguem escapar a prisão inerente dos relacionamentos minimamente longevos. Com o tempo, os rancores se transformam em silêncio. E, como seria de esperar, essas pequenas querelas da jornada são seguidamente esmagadas pela grandiosidade implacável do ambiente em redor. Nas cenas mais belas, fica o retrato desta insignificância embalada pela música de Richard Skelton.
 
A Geórgia fazia parte do imaginário da realizadora Julia Loktev, que viveu na extinta União Soviética até os 9 anos – antes de emigrar para os Estados Unidos. Este é seu terceiro filme, que há duas semanas recebeu o prémio de Melhor Filme no Festival de Istambul. Sem poupar os tempos mortos e as agruras em tempo real dos viajantes, The Loneliest Planet tem o problema de deixar em terra, ligeiramente nauseado, quem perder a bússola e não conseguir entrar na caminhada. 
 
 
Roni Nunes
 
 

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