O cinema é feito de surpresas, e filmes como ‘Juan of the Dead’ são a prova que vale a pena sair de casa, e vale a pena ir a festivais descobrir filmes diferentes dos que dominam o circuito comercial.
O ‘pitch’ de “zombies cubanos” era mais que suficiente para convencer que estávamos perante um filme divertido, que iria fazer o público do Fantasporto rir e até aplaudir. Mas as aventuras de Juan, Sara, Vladi California e La China perante uma Havana dominada por zombies são muito mais ambiciosas do que seriam de prever. O filme de Alejandro Brugués revela-se politicamente perspicaz (sem nunca tomar lado ou ser crítico) e acima de tudo uma comovente história de amizade, família e sobre viver numa sociedade empobrecida
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É que Juan é um oportunista que, perante a súbita aparição de zombies a dizimarem os bairros da Velha Havana vê uma chance de negócio. Ele, o seu amigo, a sua filha, o filho do seu melhor amigo e dois travestis (La China e Vladi) vão formar uma equipa que irá correr à cacetada os zombies por dinheiro. Mas os dilemas de Juan e das personagens são muitos. Deverão continuar na ilha agora que a situação ainda piorou mais? Valerá a pena fugir para o mundo capitalista onde para as pessoas a vida é apenas e só trabalhar?
{xtypo_quote_left} ‘Juan of the Dead’ é divertido, assustador, político e …comovente. Um dos grandes filmes do fantástico 2011/2012{/xtypo_quote_left}Um pouco como o recente ‘The Darkest Hour’, ‘Juan…’ apresenta-nos uma premissa fantástica num cenário pouco usual. Mas ao contrário do filme que contava com extraterrestres a invadir Moscovo, ‘Juan’ é um filme que vive o espírito de Havana e nos põe na companhia de personagens carismáticas e bem escritas.
Esta aventura acumula também momentos de diversão únicos como quando um dos protagonistas pensa que vai morrer e faz um pedido pouco usual ao seu melhor amigo, ou quando os heroís cubanos tentam falar inglês com um americano. A aproximação às personagens é grande, e há algo de trágico e tocante em ver os efeitos de uma praga de zombies numa sociedade pobre, com gente simples a lidar com o problema. Não é o habitual cenário de “paninhos quentes” que vemos todas as semanas em ‘Walking Dead’ e nos seus semelhantes hollywoodescos. Os heróis aqui são mestres na arte do desenrascar, e o seu espírito é tão comunitário como interesseiro: como um dos protagonistas lembra, em Cuba há que aproveitar todas as oportunidades para se fazer algum dinheiro.
No final, ficará a dúvida do porquê que o primeiro zombie parece um prisioneiro de Guantanamo? Será que foram mesmo os EUA que decidiram matar os cubanos com zombies? Ou será tudo paranóia? A certeza é que o filme de Brugués está ao mesmo nível do brilhante ‘Shaun of the Dead’ de Edgar Wright: é uma aventura de zombies característica (um era tipicamente britânico, este tipicamente cubano) mas com sentimentos universais e reais.
O Melhor: A equipa de heróis, bem escrito e interpretada.
O Pior: Nada a assinalar
| José Pedro Lopes |

