É sob o signo do mar que “Contracorriente”, primeira longa-metragem Javier Fuentes-León, se desenrola. Um mar que aprisiona corpos, e faz regressar fantasmas.
Há um romantismo (e erotismo) de tal modo efusivo e metafísico aqui, que até dá para questionar uma felicidade contraditória perante o evento que sucede a certo ponto. Mas isso é fugir aos muitos encantos que a película tem para oferecer, e é fugir também à mensagem social aqui embrulhada – e em boa verdade, a história prende-nos, qual rede de pesca, que no final quem fica de olhos secos merece sim ser questionado. A parábola subjacente é maravilhosa e conduzida de uma maneira exímia, e os actores são todos eles excepcionais.
Se “Contracorriente” é um filme perfeito ou não, já é uma questão secundária – é certamente dos mais emotivos dos últimos anos, daqueles para provar que não há nada melhor do que assistir a uma história de um outro canto do mundo passar tão bem para este lado do planeta, e ligar-se a tantos espectadores (eu incluído) com as vivências mais variadas. Justíssimo portanto o Prémio do Público em Sundance no ano passado; uma pena que não tivesse sido possível estar na competição do Queer Lisboa, pois teria um prémio do palmarés reservado, independentemente do ano em que concorresse.
| André Gonçalves |

