
Joshua Milton Blahyi é uma pessoa assustadora e ambígua. Segundo ele póprio, tornou-se um sacerdote de uma divindade tribal (a que agora chama o Diabo) à qual fazia sacrifícios humanons em rituais grotescos que incluíam canibalismo e em troca dos quais recebia a invencibilidade que usava nos combates. A crença na invencibilidade era tal que as suas tropas avançavam para o campo de batalha sem roupa, ganhando Blahyi o nome de “Butt Naked” (completamente nu, em inglês). Participante na primeira guerra civil da Libéria, Blahyi confessou ser o responsável da morte de 20.000 pessoas, quer directamente, quer pelas suas tropas, na Comissão Verdade e Reconciliação estabelecida há pouco para tentar definir quem deveria ser julgado por crimes de guerra. “The Redemption of General Butt Naked” segue Blahyi no seu regresso à Libéria, agora covertido ao cristianismo e em procura de perdão das pessoas a quem prejudicou.
Baseado essencialmente nas entrevistas e nas interacções de Blahyi, o filme estende-se por alguns anos na sua vida e acaba por conseguir mostrá-lo em toda a sua complexidade e ambiguidade. As perguntas levantadas são poderosas. É possível tal personagem redimir-se? Quais as necessidades judiciais e emotivas da sociedade que ainda não fez paz com o seu passado e quais as consequências de crimes tão hediondos não serem penalizados? É possível o convívio de monstros no seio da sociedade?
Esta é uma das personagens mais ambíguas da história moderna e o filme consegue estar à sua altura, não caindo nunca em simplificações ou parcialidades cómodas, mostrando a natureza humana na figura de Blahyi e, mesmo em momentos na igreja ou a pedir perdão, algo assustador que se esconde atrás. Conclusões terá de ser o espectador a tirá-las.
O Melhor: A complexidade e ambiguidade da personagem que conseguem mostrar no filme.
O Pior: Há documentadas atrocidades pela personagem que não são incluídas, como o canibalismo e os sacrifícios humanos, mesmo assim, este não é menos temível.
| João Miranda |

