Kevin Smith despertou. Finalmente.
Um dos meus realizadores favoritos dos anos 90 (e por consequência de minha adolescência) havia arrasado com a sua própria carreira na última década, para minha enorme desilusão. O autor da espetacular comédia indie ‘Clerks’, de uma das comédia românticas mais originais dos 90 chamada ‘Chasing Amy’ e do brilhante e genial festin que era ‘Dogma’ havia nos anos 2000 feito sofrer os espetadores em comédias previsíveis e desinspiradas como ‘Jay and Silent Bob Strike Back’ ou ‘Zack and Mira Make a Porno’ e torturado em ‘Jersey Girl’ com Jennifer Lopez. Como havia Smith se tornado um realizador tão chato e pouco relevante como o que viamos por detrás do desaires como ‘Cop Out’?
Felizmente, ‘Red State’ parece ser um grito de revolta do génio que passou mais de dez anos adormecido dentro do corpo algo obeso e barbudo do autor americano. ‘State’ é bem mais do que parece à primeira vista, e a aparatosa vitória em Sitges é apenas um pequeno sinal disso.
Efetivamente, arrancamos como um pequeno filme de ‘torture porn’: três jovens do interior dos EUA marcam um pequeno encontro sexual com uma mulher desconhecida via internet. Quando lá chegam, são raptados por fanáticos religiosos que os querem torturar como parte da sua crença. Estes fanáticos, liderados pelo bem falante Revendo Cooper, adoram cantar e falar de bons morais, e de como os homosexuais são culpados de tudo, inclusive, de abortos clandestinos.
Filmado com uma RED, Smith absorve toda a luz e profundidade de campo do cinema digital para criar uma filme colorido e intimista, mas ao mesmo tempo rápido e intenso. Se ‘Red State’ começa como um ‘Hostel’, depressa evolui para uma cenário típico de um ‘Assault on Precint 13’: um cerco feito por agentes governamentais como ordens tão lunáticas como os fanáticos religiosos irá fazer escalar os eventos minimalista da premissa do filme.
O ideal é não revelar muito mais. A reta final do filme é uma verdadeira surpresa – Smith torna-se político, agressivo e até algo perigoso nas implicações e sugestões que fez: talvez a maior loucura desses tais “Estados Vermelhos” (dominados por conservadores repúblicanos) não sejam afinal as seitas, mas algo que se esconde atrás do nosso ceticismo.
O Melhor: Todas as cenas com Michael Parks e o desfecho da discussão final entre a sua personagem e a de John Goodman.
O Pior: Nada a assinalar.
| José Pedro Lopes |

