“Qual o interesse de saber tudo?” diz Charlotte, médica e casada com Alex, na terapia de casal que frequenta, depois de ter sido descoberto que costumava ter casos com os seus pacientes. Movimento Browniano é um termo que costuma descrever o movimento aparentemente aleatório de uma particula num fluido e que parece aqui descrever a vontade de Charlotte. Este filme, que pode parecer que nos mostra a vida íntima de Charlotte, na realidade mostra-nos constantemente a impossibilidade de a conhecer, quer nos planos longos em que vemos as emoções passarem pela sua cara quando apanha sol ou se encosta ao cimento de uma parede de uma obra inconcluída, quer nas cenas mais íntimas ou familiares.
É um filme de ritmo lento, com longos planos onde se vê Charlotte e se pode imaginar o que sente, mas que se sucedem sem qualquer intenção dela de se explicar, para frustração de Alex, cuja confiança nela vai hesitando, apesar do reforço de Charlotte do seu amor e da sua entrega. Numa cultura em que tudo tem de ser explicado, em que a vida pessoal tomou conta da vida pública, em que tudo é psicologizável e onde o excesso de partilha reina, este filme defende a vida íntima do olhar voyeur da câmara, mesmo durante cenas de sexo ou de terapia, mantendo Charlotte um enigma.
Um filme com a sensibilidade única de uma mulher, escrito e realizado por Nanouk Leopold, que não tenta justificar ou moralizar as acções de Charlotte e profundamente feminista.
O Melhor: A recusa de explicações.
O Pior: Por vezes sente-se o passo lento.
A Base: Um filme com a sensibilidade única de uma mulher, profundamente feminista…8/10
João Miranda

