Durante muitos anos, as filmagens encontradas nos arquivos nazis sobre o Gueto de Varsóvia foram consideradas como um documento histórico, um registo feito pelos próprios nazis a documentar a diferença de estilos de vida dentro do Gueto entre as famílias com dinheiro e as que não o tinham. O filme foi encontrado numa fase inicial da montagem, sem títulos ou som, e sem qualquer texto que ajudasse a perceber qual a intenção dos que o fizeram. Após a sua descoberta, foi a principal fonte de imagens para documentários, apesar da incongruência entre os testemunhos existentes e a aparente opulência nele registada. Em 1998 foram descobertas filmagens adicionais que permitiram, com a ajuda de mais alguns registos escritos, destrinçar a trama e a história deste filme.
«A Film Unfinished» é como um filme de detectives, onde as pistas se vão acumulando e a história revelando. A partir das filmagens originais, a realizadora vai explorando as dissonâncias entre os registos, usando diários escritos por pessoas no Gueto, testemunhos orais de sobreviventes e as novas filmagens, onde finalmente se torna óbvia a encenação e a repetição das cenas até se obter um determinado resultado.
Susan Sontag referia, a propósito da fotografia, que há uma tendência humana para atribuir uma autenticidade às imagens, como uma forma de registo do que se passou, apesar das limitações da tecnologia e da manipulação inevitável do enquadramento, do tema, do que é escolhido ser visível e do que fica de fora. O género documental no cinema acaba por cair muitas vezes nessa falácia do registo histórico, da veracidade das imagens por oposição aos registos escritos e orais. Este filme explora com mestria essa oposição e põe em causa a isenção do género e mostra, neste caso específico, como este pode ser utilizado para servir uma ideologia ou uma narrativa oficial de forma destrutiva e persistente.
Este é um filme a ver por qualquer pessoa interessada no momento histórico, mas também por pessoas que se interessem pelo género documental e pelo cinema. É, obviamente, um filme difícil, com cenas de pobreza extrema, doença, fome e a morte sempre presente, em corpos espalhados pelas ruas e pela cena final de uma vala comum onde os corpos são empilhados depois de recolhidos na rua. No site oficial ) pode tentar organizar visionamentos e há recursos para escolas onde se explica mais a fundo os temas.
O Melhor: A construção progressivamente mais complexa do filme.
O Pior: Se todos os documentários servem um propósito ideológico, qual o deste?
A Base: A ver por qualquer pessoa interessada no momento histórico, mas também por pessoas que se interessem pelo género documental e pelo cinema. (7/10)
João Miranda

