Não há desculpas para não se fazer um grande filme: esta é a única conclusão que podemos tirar ao ver o arrepiante ‘La Casa Muda’, um projecto oriundo do Uruguai que custou menos de 5000 euros, mas que tem vindo a conquistar o mundo aos poucos (grande sucesso em Cannes e em Sitges). Este filme de Gustavo Hernández vem apresentado como um plano sequência de 70 minutos, rodado com uma Canon 5D Mark II (uma câmara digital que pequeno porte e de um custo acessível a qualquer jovem cineasta).
No entanto, a grande surpresa de ‘La Casa Muda’ é que não faz justiça a este pressupostos modestos com que o apresentou. Se o britânico ‘Colin’ fazia valer o seu estatuto “low cost” por uma premissa original mas era simples à primeira vista, ‘La Casa Muda’ é um filme tecnicamente perfeito. A fotografia de Pedro Luque (que já nos havia deixar de boca aberta com a curta ‘Ataque de Pânico’) é um milagre da cinematografia: um plano sequência feito com uma DSLR onde a focagem é sempre perfeita, a iluminação sempre exacta e o ritmo é infalível. Considerando que vem aí um ‘remake’ americano deste filme, interrogo-me como conseguirá o profissional e bem pago director de fotografia de Hollywood superar ou igualar a ciência exacta que é o plano sequência que constitui ‘La Casa Muda’.
No filme, acompanhamos como Laura e o seu pai Wilson vão até uma casa abandonada que vão reabilitar para vender. Quando lá chegam à tarde, eles decidem dormir antes de começar a trabalhar na manhã seguinte. Mas mal adormeçem ruídos estranhos surgem do andar superior. Wilson vai investigar mas é atacado… Laura fica sem saber o que fazer.
{xtypo_quote_left} ‘La Casa Muda’ vale pela proeza técnica de executar um plano sequência perfeito. Mas vale ainda mais por ser um dos filmes mais assustadores dos últimos anos, sem facilitismos “a la Found Footage”. {/xtypo_quote_left}Uma das principais proezas de ‘La Casa Muda’ é o facto de este não ser executado no protocolo ‘Found Footage’, o que seria uma solução muito fácil tendo em conta os seus pressupostos. Este plano-sequência força o filme a uma grande ginástica em termos de construção de suspense e revelação narrativa. O que vemos e não vemos é jogado de forma exímia e em altura alguma temos, como em ‘REC’ ou ‘Paranormal Activity’, personagens a explicar o que não percebemos enquanto falam para a câmara. ‘La Casa Muda’ nunca é confuso e a sua câmara nunca abana – percebemos tudo o que se passa e é… assustador.
Com uma sonoplastia criativa e uma plano sequência tenso e estável, esclarecedor e muito visual, ‘La Casa Muda’ é um dos filmes mais assustadores dos últimos anos. A tensão na sua primeira metade é enorme, e quando o filme decide fazer-nos saltar da cadeira, conseguem sem grande esforço. Mas a sua grande surpresa vem na recta final, onde seria de prever um abrandar no factor tensão: bem pelo contrário. A narrativa torna-se mais densa, e ‘La Casa Muda’ evolui do terreno dos sustos para o terreno de filme perturbador em termos de conteúdo nas suas revelações.
Raro é o filme de terror que consegue ser tão criativo, e que faz render tanto cerca de 70 minutos de duração: ‘La Casa Muda’ assusta e incomoda, é um projecto todo o terreno e que deixa o alerta que o realizador Gustavo Hernández e o director de fotografia Pedro Luque são dos maiores talentos a surgir no cinema da nova década.
O Melhor: O medo é mesmo real.
O Pior: Certos momentos da banda sonora.
| Jsé Pedro Lopes |

