‘Never Let Me Go’ (Nunca Me Deixes) por André Gonçalves

(Fotos: Divulgação)
O que é (o) ser humano? 
 
Eis a grande base que nos propõe este assombroso e já subestimado “Nunca Me Deixes”, uma obra-prima existencialista mascarada de um híbrido de filme de ficção científica retro-futurista com uma produção de época britânica Merchant-Ivory, como muitos já o descreveram. 
 
Esta mistura tinha muito para dar errado. Mas Mark Romanek, vindo da escola de videoclipes que nos trouxe já nomes como os de Jonathan Glazer, David Fincher, ou Michel Gondry, sabe muito bem o que faz. E ao decidir adaptar fielmente o igualmente sublime romance de Kazuo Ishiguro ao grande ecrã (o seu “Os Despojos do Dia” já tinha sido posto na tela pela dupla… Merchant e Ivory. Coincidência?), realiza aqui um filme que será certamente visto com melhores olhos daqui a umas décadas, cumprindo a tradição infeliz de alguma ficção científica com ideias ter que sofrer as passas do Algarve até obter o reconhecimento merecido (“Blade Runner”, “Gattaca”, “A.I.” e “Birth” são apenas alguns dos exemplos que me vêm à memória). As zero nomeações ao Oscar são ainda assim, um tiro no coração deste crítico semi-profissional.  
Contar a história de “Nunca Me Deixes” é complicado, uma vez que o conceito de “spoiler” entra aqui em efeito só com uma simples leitura da sinopse. Mas ao contrário de outros filmes, puramente baseados nas suas reviravoltas, “Nunca Me Deixes” não se prende ao momento em que Miss Lucy  anuncia aos seus alunos o motivo pelo qual estes são especiais. Podemos dizer que estamos perante uma das fábulas existencialistas mais deprimentes e cruéis dos últimos anos, não tão longe do cenário mais satírico de um “Canino” como se poderia pensar, embora com mais romantismo à mistura. Cruel, não só pelos meios e principalmente os fins para os quais estes estudantes são criados. Cruel, porque fala-nos de algo comum a qualquer ser humano: todos nós, enquanto humanos, temos um tempo limitado aqui. E portanto, a história de três jovens transforma-se na história da nossa humanidade.  
 
E no entanto, haverá muito boa gente que ainda pergunte “Mas porque é que estes jovens não fogem – ou tentam fugir pelo menos?”, como em qualquer filme que vimos neste contexto. É humano fugir, e portanto será humano perguntar. E eis que encontramos o cerne deste maravilhoso e cruel filme: quantos de nós fugimos de facto das nossas vidas, e do “deixa andar”? Não será tão ou mais humano do que a rebeldia, a passividade?  
 
“Mas porquê tanto trabalho para os criar?” A metáfora tem sempre um contraponto. Obviamente que aceitar a metáfora, e ligar a estas personagens, e perguntarmo-nos se de facto estamos a aproveitar bem o nosso tempo, é parte essencial de adorarmos ou não este filme. 
 
Não estou à espera que todos percebam este meu amor aqui, teriam que olhar para dentro da minha alma, se não para dentro das vossas próprias almas. Ainda assim, nenhum outro filme me tocou da mesma maneira no último ano ou dois como “Nunca Me Deixes”. Talvez seja mesmo isto que faça de nós humanos. Amarmos profundamente e irracionalmente algo, porque nos relacionamos com o que nos estão a dizer, a cada segundo. Porque ao acompanhar os olhos sábios e genuínos de Carey Mulligan, o grito ensurdecedor de Andrew Garfield, ou a culpa de Keira Knightley disfarçada de inexpressividade (que elenco, é preciso salientar!), sabemos que afinal, estamos todos no mesmo barco. 
 
Podia encher mais uma página, a falar de como o estilo de Romanek me fez lembrar, tal como a outros críticos, de outros realizadores do passado (como Malick, Kubrick, Ozu, Campion… ), na sua esmagadora subtileza, e poesia visual. E falar também um pouco sobre a belíssima banda sonora de Rachel Portman, composta muito à base de violinos. Mas o tempo escasseia, tal como os preciosos 103 minutos deste filme nos mostram. E portanto, eis que sigo em frente na esperança de estar a viver suficientemente bem a minha vida.     
 
O Melhor: O humanismo de tudo. A metáfora perfeita dos tempos modernos sobre a nossa humanidade, e consequentemente a nossa mortalidade. 
O Pior: Ter que viver na obscuridade por uns bons tempos, até umas décadas mais tarde, começarem a pegar nele com outros olhos
 
 
A Base: “Nenhum outro filme me tocou da mesma maneira no último ano ou dois como “Nunca Me Deixes”. Talvez seja mesmo isto que faça de nós humanos. Amarmos profundamente e irracionalmente algo, porque nos relacionamos com o que nos estão a dizer, a cada segundo.”…10/10 
 
“Nunca Me Deixes” vai ser lançado directamente para vídeo em Portugal 
 
André Gonçalves 

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