Há em DAU uma espécie de Oppenheimer russo, mas Ilya Khrzhanovsky não está propriamente interessado em responder a Christopher Nolan. O seu filme transforma a trajetória de um físico brilhante, progressivamente obrigado a colocar o génio ao serviço do Estado e da construção da arma mais mortífera do mundo, numa autópsia do próprio projeto soviético. A ação atravessa quatro décadas, de 1928 a 1968, em grande parte dentro de um instituto de investigação onde privilégio, hierarquia e vigilância compõem uma sociedade em miniatura.

É justamente nessa escala que DAU impressiona: a grandeza deixa de ser virtude para se tornar patologia. Khrzhanovsky filma a loucura de um império que ambicionou reorganizar o Homem, a ciência, a História e até a intimidade, mas acabou esmagado pelo peso da própria dimensão. O protagonista, interpretado por Teodor Currentzis, é simultaneamente beneficiário e prisioneiro dessa máquina. Quanto mais compreende as leis do universo, menos parece compreender as regras que governam os seus afetos. A sucessão de relações extraconjugais e o progressivo esvaziamento dos seus vínculos fazem do cientista um espelho humano de uma União Soviética capaz de produzir conhecimento extraordinário enquanto aperfeiçoava mecanismos de controlo.

A realização, notável, espelha a assimetria racional do protagonista. Khrzhanovsky procura ordem através da desordem, precisão através do excesso, monumentalidade através de pequenos gestos. A divisão das filmagens em três blocos — Leningrado, Kharkiv e Moscovo —, cada qual com identidade estética própria, reforça a impressão de estarmos a observar não apenas a passagem do tempo, mas a mutação de um organismo político.

Filmado em 35 mm e construído a partir de um mundo material de obsessiva minúcia, DAU parece querer reproduzir a contradição central do seu herói: tudo é pensado, calculado, racionalizado e, no entanto, tudo caminha inexoravelmente para o caos.

Não por acaso, Khrzhanovsky conquistou em Veneza o Leão de Prata de Melhor Realização.

DAU é menos uma cinebiografia do que uma experiência sobre o delírio da grandeza: um império olha para o átomo convencido de que pode dominá-lo, sem perceber que já não consegue dominar-se a si próprio.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
dau-ilya-khrzhanovsky-transforma-a-vida-de-lev-landau-numa-autopsia-da-uniao-sovieticaDistinguido com o Leão de Prata de Melhor Realização em Veneza, o filme acompanha quatro décadas da vida do físico soviético e transforma ciência, poder e intimidade numa mesma máquina de controlo.