Dag Johan Haugerud filma ‘o amor que cuida’

(Fotos: Divulgação)

Ao fim de um processo literário em forma de romance, sem título em português, mas traduzível do norueguês para inglês como Pastoral Care, o realizador Dag Johan Haugerud antecipa ao C7nema que as próximas longas-metragens hoje no seu cronograma de criação serão narrativas em forma de díptico, especulares. Elas começam a se viabilizar após a consagração do seu recente exercício autoral “Dreams (Sex Love)” com a conquista do Urso de Ouro de 2025.

Estou a trabalhar no argumento e terei duas histórias que conversam entre si, com duas atrizes diferentes, pois gostei do formato que testei na minha recente trilogia com ‘Sex’, ‘Love’ e essa fita de Berlim, e quero voltar a testar as suas potencialidades”, explicou o cineasta e escritor norueguês ao C7nema, em entrevista via Zoom.

Nesta quinta-feira, o publico português conhecerá a adolescente Johanne, aspirante a Clarice Lispector, que fez da atriz Ella Øverbye transformar-se num ímã de elogios em Berlim. A sua história é parte de um projeto que Dag idealizou a fim de entender os modos de amar, de ter prazer e de temer o querer. Ele integra uma trilogia antecedida pelos já citados “Sex” e “Love”. Os três custaram cerca de 5 milhões de euros e nasceram de uma sinergia de uma plataforma de streaming (Viaplay), que viu o projeto como se fosse uma série, e de fundos estatais. Antes dessa trinca, Dag era conhecido pela realização de “Barn” (“Nossas Criançasbr, 2019) e pelo seu prestígio nas faculdades de Letras da Europa.

Na trama de “Dreams (Sex Love), o realizador faz uma ode à literatura ao narrar o processo de escrita de Johanne (papel de Ella) no registo (em prosa) das suas fantasias sentimentais por uma mulher mais velha, uma instrutora de Francês que jamais a vê com desejo. Quando a mãe, Kristin (Ane Dahl Torp), e a avó, a serena Karin (Anne Marit Jacobsen, em magnética interpretação), descobrem a sua redação (já numa forma de original de livro, e não de diário), o choque inicial com as descrições íntimas dá lugar à admiração pelo mérito da menina com o vernáculo. As duas mulheres mais velhas – que sempre tiveram uma sólida cumplicidade na dinâmica mãe-filha – começam a refletir sobre as suas próprias vivências amorosas, os prazeres e as oportunidades perdidas. Essas perdas são abordadas por Dag nas respostas a seguir:

A estudante Johanne em “Dreams (Sex Love)”, o ganhador do Urso de Ouro de 2025 Crédito: Agnete Brun

O quanto a essência cinematográfica da chamada ‘love story’, tão praticada por Hollywood, é capaz de sobreviver às polarizações do Presente e à cultura do ódio nas redes sociais?

O amor clássico do cinema é romântico. Ele fala de paixão e lida com a fantasia. Eu procurei a utopia de um realismo em que o amor se manifestasse não como romantismo, mas como cuidado, como parceria, como troca. O amor idealizado, que quer ser como um filme, frustra quem espera por ele. Eu trato das expectativas, sim, mas estou a mirar o afeto pela forma como ele se mantém, pelo cuidado que se exercita no dia a dia, no viver.    

De que maneira “Dreams (Sex Love)” representa o estado atual da Dinamarca no cinema?

Ele é um projeto de baixo orçamento que existe por conta das políticas de cinema que o nosso país criou há uma década. É preciso ser paciente para saber o quanto vão durar. Como um retrato da cultura escandinava, o filme carrega o cuidado com a palavra, na certeza de que ela pode ser cinematográfica, uma vez que é a expressão do corpo de uma atriz, de um ator.  

Qual é o lugar da prosa literária no filme como expressão de criação e de acolhimento?
A literatura é encarada como um instrumento perigoso em certos países porque ela liberta. Ela faz de ti um criador em conjunto com o autor, uma vez que estimula a imaginação. É dela que eu tiro minha inspiração, embora sempre veja filmes. Parei de escrever sobre eles, em jornais, depois de ver “Bleu” (“Azul”), de Kieslowski, que não gostei, ainda que admire os outros trabalhos desse realizador, e comecei a escrever livros e argumentos. O cinema que eu faço tenta encontrar uma mise-em-scène em longos takes de conversação, pois falar é uma prática do dia a dia e a minha cultura resolver seus problemas na troca de ideias.  

Qual é a juventude que Johanne simboliza?
Ela chega a simbolizar até um pouco de mim, uma vez que eu também fui adolescente e tive, como qualquer pessoa, um amor de juventude. Esse filme mostra como essas memórias afetivas são parte de nós.

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