Para atender o pedido de um amigo enfermo, com quem estudou as regras básicas da realização, o cineasta teuto-turco Fatih Akin aceitou a missão de reviver a II Guerra Mundial sob a ótica infantil de um garoto que cresceu sob a ideologia nazi, no início dos anos 1940, sem saber das atrocidades que o seu país cometeu sob o jugo da SS. Essa é a linha estrutural do argumento original de Hark Bohm, o tal mestre de quem Akin herdou “Amrum“, lançado na seção Première do 78.º Festival de Cannes. Na longa-metragem, o jovem Jasper Billerbeck interpreta Nanning, um menino de 12 anos abalado pelas últimas semanas do conflito do Eixo contra os Aliados. Um segredo de família há de abalar a frágil paz da ilha onde vive.
Em 2017, Akin passou pelo Croisette em disputa pela Palma de Ouro com “Aus dem Nichts” (“Uma Mulher Não Chora” em Portugal; “Em Pedaços” no Brasil). Aquele trágico ensaio, em tons de thriller, sobre a maternidade, deu-lhe o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e valeu o prémio de Melhor Interpretação para Diane Kruger na Croisette. Ela volta a trabalhar com ele na saga do já citado Nanning, que luta para ajudar a mãe (Laura Tonke) sem saber que os nazis foram derrotados. Duas décadas depois de exibir “Head-on” (“A Esposa Turca“pt; “Contra a Parede”br), que lhe rendeu o Urso de Ouro de 2004, o realizador analisa o saldo do que as tropas de Hitler fizeram.

De que maneira a cartilha do melodrama, tão essencial a filmes do seu passado, como “Head On“, ainda funciona como um instrumento na forma de tratar dilemas familiares, ainda que no registo épico, como se vê em “Amrum“?
Cresci a ver filmes turcos que, na sua maioria, eram melodramas e foram a base do meu conhecimento até que cheguei ao cinema alemão. Na Alemanha, o caminha era o oposto do que se via na Turquia, ainda que existisse Fassbinder. Se tiver que usar algo de melodramático numa narrativa hoje, farei, mas não gosto de voltar ao que já fiz. Eu só quero fazer o que arrisque a minha carreira.
Nesse ponto, um filme com foco nos bastidores da II Guerra leva-te a desafiar um assunto ainda cercado de fantasmas (entre eles o da culpa), mas pelo olhos de um miúdo. O quanto a sua pessoa se reflete em Nanning e quando foi a primeira vez que ouviu falar no nazismo?
Eu não saberia precisar quando me dei conta da II Guerra, quando era criança, até pelo facto de o tema, na Alemanha, estar no oxigénio que respiramos. A TV alemã da década de 1980 exibia um programa que se chamava “40 Anos Atrás…”. Por meio dele, ali em 1981, 82, a minha geração informou-se do que se passou, embora o distanciamento histórico fosse pequeno. Temos de convir que 40 anos é pouco tempo.
De que maneira “Amrum” se põe como um espelho da Alemanha de hoje?
Se eu quiser ir por uma linha neorrealista, na qual a simplicidade reina, posso dizer que um filme sobre uma ilha traz algo do romantismo por aproximar o humano da natureza. Em qualquer história insular – um filão que se encontra em “Robinson Crusoé“, por exemplo -, o espaço de terra é sempre algo simbólico. No caso de “Amrum“, não há dúvida de que ele simboliza o agora. A Alemanha ainda está traumatizada pela culpa.
O que o ator, cineasta e (seu) professor Hark Bohm lhe ofereceu de mais precioso na criação de “Amrum”?
Goethe diz que a educação é um lar. O meu lar, nesse caso, mesmo sendo alemão, vem da Turquia, pois fui formado sob as influências turcas. Hark foi um professor que tive e me mostrou uma parte pouco conhecida do cinema alemão. Ele filmou nos tempos da Nova Onda (os anos 1970), mas não ficou tão popular como os seus pares, embora tenha feito um trabalho importante como ator. Ele fez filmes com crianças à sua época e queria fazer “Amrum” para contar o que viveu. Quando longas-metragens como “Belfast” e “Os Fabelmans” saíram, convenci-o a filmar e tentei financiá-lo. Aí, ele ficou doente e disse: “Ofereço-te o meu filme“. Ná época, um projeto meu não aconteceu eaceitei fazer o que ele pediu, pois a minha produtora precisava de um filme. Estava a escrever outras longas-metragens em paralelo até perceber que tinha algo potente na mão.

