Difícil não associar este “Manodrome” – em competição no Festival de Berlim – a clássicos como “Taxi Driver” e “Fight Club“, dois objetos que, em épocas diferentes, analisaram de forma diferenciada masculinidade, a violência e fórmulas antissistema que encontravam no seu lado mais sombrio alguma empatia por parte do espectador. E ambos os filmes, de Martin Scorsese e David Fincher, respetivamente, também se centram na descida vertiginosa ao inferno interior dos seus protagonistas, os quais caem numa espiral destrutiva no cumprimento das expectativas sociais que se têm neles.

Mas ao espetáculo e profundidade na sua crítica social, que era o denominador comum nos dois filmes, o sul-africano John Trengrove, realizador de “The Wound”, (indicado ao Oscar de melhor filme internacional em 2017), responde com histerismo e superficialidade, secando a espessura de qualquer personagem secundária e deixando Jesse Eisenberg sozinho na tarefa de carregar o filme às costas através da sua mente quebrada e à beira do abismo emocional.

Aqui, Eisenberg é Ralphie, um condutor da Uber que se prepara para ser pai pela primeira vez. Logo na primeira cena do filme sentimos que ele não está bem, e o nosso primeiro impacto é através do seu olhar pelo espelho retrovisor para uma mulher que amamenta o seu bebé. “Freak!”, grita ela, iniciando uma jornada contínua pela vida deste homem cujo maior prazer parece ser o “malhar” no ginásio à procura de um corpo mais robusto, mais vincado nas formas sociais definidas para as figuras masculinas. É nestas andanças que ele se enche de proteínas e esteróides, cruzando o seu caminho a certo momento com o auto-intitulado “Papá Dan” (Adrian Brody), o qual gere um grupo (com toques de seita e sociedade secreta) que se propõe a ajudar Ralphie (Eisenberg) a “ser um homem”.

E se Dan fala em mestre da “criação” e “aniquilação” sobre Ralphie, o que mais sobressai para o espectador é antes uma total repressão das emoções que este guarda encriptadas em si, e que o incapacitam de tomar qualquer decisão moral com clarividência. Isso mesmo fica explícito quando no meio dos seus problemas financeiros, ele se aproveita do telefone esquecido por um miúdo no seu carro, iniciando um desvio para a criminalidade, que a cada momento se torna mais grave e sombria.

Trengrove carrega na estética, cercando e sufocando cada vez mais Ralphie nos seus enquadramentos, movimentos de câmara e colorações, mas nunca consegue efetivamente viajar com profundidade a todos os temas que lança em cena. O resultado é um filme derivativo que não consegue efetivamente, nem analisar as pressões tóxicas que teimam em criar definições padronizadas da masculinidade, nem o desvio paranóico que certas ideias dessa mesma masculinidade podem desviar nos mais frágeis e reprimidos.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
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