“Distancia de Rescate” de Cláudia Llosa

(Fotos: Divulgação)

As imagens de “Distancia de Rescate” (Distância de Segurançapt/O Fio Invisívelbr, 2021) provocam sensações muito femininas mais do que contam propriamente uma história. O invisível, neste caso, está ligado a certa ameaça, a um sentimento constante de insegurança e impotência das mulheres envolvidas no filme, revelando a angústia que sentem como mães e a proteção maternal na criação dos filhos sem o apoio de seus companheiros/maridos.

Numa atmosfera perturbadora que remete ao filme “O Pântano” de Lucrécia Martel (1966-), a realizadora peruana Claudia Llosa (1975-) compõe uma narrativa misteriosa, que parte de aspetos supostamente banais e aos poucos vai inserindo elementos insólitos sem, contudo, deixar as coisas claras. E isto causa certa inquietação no espectador, que se pergunta o que é real e o que é delírio com relação ao que acontece com as personagens.

Jovens realizadoras latino-americanas têm se inspirado cada vez mais na estética do cinema de Lucrécia Martel. Além da realizadora de “Distancia de Rescate“, citaria também a argentina Inés María Barrionuevo, em especial, no filme “Julia y el zorro” (Julia e a raposa, 2018).

O filme “Distancia de Rescate” surge do livro traduzido para português como “Distância de Resgate” (2016), romance de estreia da argentina Samanta Schweblin (1978-), herdeira literária do realismo fantástico. Schweblin narra factos e conflitos que vivem as mães Amanda e Carola, mães de Nina e David, mulheres que vivem numa bela região campestre em que a natureza está contaminada pelo uso de agrotóxicos. Uma história plena de mistério e tensão contada num fluxo ágil e ininterrupto.

A escritora foi convidada pela realizadora Cláudia Llosa a compartir a escrita do guião do filme e os encontros criativos deram-se online, através do Zoom, durante os primeiros meses da pandemia Covid 19. As duas vivem na Europa. Segundo Samanta Schweblin, a adaptação cinematográfica ficou fiel ao seu livro. Não custa lembrar que o cinema e a literatura são duas linguagens com especificidades muito próprias.

No filme, Amanda e Carola vivem “atormentadas”, guiadas pela voz ou pelo espírito de um menino, Davi. Filho de Carola, que teria morrido envenenado por algum pesticida anos atrás quando criança. A sua imagem aparece e desaparece na narrativa o tempo todo, como se estivesse vivo. Ele encarnou no corpo de outra criança (da Nina? Filha de Amanda), como forma de continuar a viver, num acordo de Carola (mãe de Davi) com uma espécie de “curandeira”. Davi comunica através da mente, do pensamento ou da imaginação de Carola, e igualmente de Amanda. As conversas entre eles envolvem tudo que acontece na realidade quotidiana. Davi vê e sabe tudo sobre todos.

A parte do filme que mais me atrai é a conexão explícita entre as duas mulheres e as questões femininas que as afligem. Carola conhece bem a vida de Amanda, apesar de terem se encontrado há pouco tempo na região onde vivem. São vizinhas temporárias. Amanda está passando uma temporada na casa de campo da família. O cenário onde as mulheres habitam é um lugar bucólico e lindo, cinematográfico, por assim dizer: grandes campos de cultivo de alimentos, com larga produção agrícola. Carola e Amanda vivem permanentemente sob tensão, aterrorizadas por algo obscuro e não palpável que desequilibra a segurança delas enquanto mulheres e mães. As duas, nas suas conversas diárias, compartilham os seus temores, os problemas da maternidade e conjugais, mencionam os companheiros/maridos, pais faltosos, distantes da família. Elas dividem os conflitos de mulheres-mães na lida com os filhos e deixam às vistas as suas fragilidades por criarem sozinhas as crianças que tanto querem proteger de qualquer perigo visível ou invisível. Mulheres cujas vidas estão subordinadas, restritas ao universo familiar e aos limites que de certa forma lhes impõem os maridos provedores ausentes e a pacata vida rural. Elas não exigem dos maridos a responsabilidade na educação das crianças. São mulheres jovens, belas, do lar, sem ocupação profissional, pouco ou nada transgressoras. Em algumas cenas, as duas se sentem fisicamente visivelmente atraídas uma pela outra, mas os desejos delas não se consomem e não rompem com o que lhes é dado. Não são personagens que transformam as suas vidas.

As imagens fluem na tela. Amanda faz perguntas a si mesma, mentalmente, enquanto dialoga com Carola. Tudo é enigmático. Davi dialoga com a mãe e com Amanda de modo intangível e atormenta-as por meio de imagens mentais; coloca em abismo e em perigo a vida de Amanda e da sua filha Nina.

O filme é cheio de flashbacks, fazendo com que passado e presente se cruzem em camadas e se confundam. Nada é muito claro. E uma permanente tensão envolve os personagens e intriga o espectador, fazendo com que se pergunte o que é real, o que é imaginado ou inventado. Amanda e Carola sofrem de alucinações? Sofrem com as estranhas e constantes aparições de Davi que as amedrontam e fragilizam.

O filme é rodado mais em planos fechados para expor detalhes importantes ligados aos sentimentos das personagens e aproximar o espectador daquilo que as afligem.

A força de Davi é perturbadora, assusta, abala e desestabiliza principalmente Amanda, a ponto de cessar a sua vida. Um fio invisível une e separa as relações entre Amanda e Nina, Carola e Davi; mães que lidam com os filhos tentando manobrar uma distância de resgate diante dos constantes perigos que os rodeiam, mães que atravessam uma insegurança incessante de perde-los. Vidas e histórias pessoais e femininas que se entrecruzam.

Há algo curioso na escolha das atrizes, fisicamente Amanda se assemelha à escritora, e Carola à realizadora, mas isto talvez seja apenas um facto curioso.

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Distancia de Rescate (Chile/Espanha/EUA, 2021] é uma ficção de subtil e constante suspense com duração de 1h33min, com direção de Cláudia Llosa e está disponível na NETFLIX. A realizadora também dirigiu a longa-metragem “A teta assustada” (2009). Ela é sobrinha do escritor Mario Vargas Llosa.

Resumo

Numa atmosfera perturbadora que remete ao filme "O Pântano" de Lucrécia Martel (1966-), a realizadora peruana Claudia Llosa (1975-) compõe uma narrativa misteriosa, que parte de aspetos supostamente banais e aos poucos vai inserindo elementos insólitos sem, contudo, deixar as coisas claras.
Lídia Ars Mello
Jorge Pereira

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Numa atmosfera perturbadora que remete ao filme "O Pântano" de Lucrécia Martel (1966-), a realizadora peruana Claudia Llosa (1975-) compõe uma narrativa misteriosa, que parte de aspetos supostamente banais e aos poucos vai inserindo elementos insólitos sem, contudo, deixar as coisas claras."Distancia de Rescate" de Cláudia Llosa