Sessões na Cinemateca – Escolhas de 23 a 28 de novembro

(Fotos: Divulgação)

O mês de novembro vê terminar a retrospetiva que a Cinemateca Portuguesa organizou juntamente com a 13ª Festa do Cinema Italiano, a propósito do ano do centenário do nascimento de Federico Fellini, que integrou todos os filmes deste cineasta. E como se esta celebração da sétima arte não bastasse, o outro grande ciclo do mês de novembro tem proposto a descoberta daqueles momentos de cinema que transcendem qualquer linha lógica, em que vinga a pura linguagem cinematográfica e se criam grandes mitos e cenas lendárias. Momentos que nos levam a exclamar “Só o Cinema”! De Griffith a Manoel de Olveira, passando por Bergman, Bresson, Mizoguchi e Akerman, novembro tem sido um dos meses mais recheados do ano.

Estas são as nossas sugestões para as sessões a decorrer na semana de 23 a 28 de novembro:

– Aparajito (O Invicto, 1956) – Segunda-feira, 23 de novembro, 20h00, Sala M. Félix Ribeiro. Neste segundo episódio da “trilogia de Apu” de Satyajit Ray, talvez o mais belo dos três, a família de Apu está instalada na cidade santa de Benares. Mas o pai morre e a mãe regressa à aldeia natal com Apu, que vemos passar da infância à adolescência. Uma belíssima relação mãe/filho está no centro deste filme, em que vemos Apu transmitir à mãe, que se sacrifica para que ele estude, parte do que aprende na escola.

– The Wind (O Vento, 1928) – Terça-feira, 24 de novembro, 18h00, Sala M. Félix Ribeiro. Talvez a obra-prima absoluta de Victor Sjöström. Este grande mestre da paisagem no cinema troca as paisagens geladas dos seus filmes suecos pela aridez de um deserto americano. Um filme mudo que nos faz “ouvir” o assobio ameaçador do vento, que sopra com violência em volta de uma casa no deserto, onde uma mulher (Lillian Gish) tem de lutar também contra a paixão desenfreada de um homem. Sjöström constrói uma atmosfera de pesadelo com base apenas na sugestão. Um dos pontos altos do cinema mudo, reforçado pela presença inesquecível de Lillian Gish.

– Amarcord (1973) – Quarta-feira, 25 de novembro, 15h00, Sala M. Félix Ribeiro. Este é o filme que reconcilia todos os espectadores à volta de Fellini: os que gostam do seu primeiro período e os que preferem os seus filmes mais “barrocos”. Amarcord pode ser considerado uma espécie de síntese do cinema do realizador, o ponto de convergência de diversas linhas da sua obra. No patoá da província natal do cineasta, “amarcord” (mais exatamente a “m’arcord”) significa “recordo-me” e este filme é uma espécie de romance que faz uma belíssima incursão na memória, com situações transfiguradas pela distância e pela evocação poética da adolescência de Fellini e dos seus encontros com personagens singulares que ressuscitam a cada um dos seus filmes.

No Home Movie (2015) – Quarta-feira, 25 de novembro, 17h30, Sala M. Félix Ribeiro. De uma profunda delicadeza e generosidade, No Home Movie é simultaneamente um diário, um aceno, uma despedida, uma visita repleta de entrelinhas confessionais. “Este filme é acima de tudo sobre a minha mãe, a minha mãe que já não se encontra entre nós. Sobre essa mulher que chegou à Bélgica em 1938, em fuga da Polónia, dos pogroms e da violência. Essa mulher que é sempre apenas vista dentro do seu apartamento. Um apartamento em Bruxelas. Um filme acerca de um mundo em movimento que a minha mãe não vê.” Belíssimo, este seria o último filme de Chantal Akerman, que afirmou que a mãe, Natalia, era o centro da sua obra.

– Onna Ga Kaidan O Agaru Toki (Quando uma Mulher Sobe as Escadas, 1960) – Quinta-feira, 26 de novembro, 20h00, Sala M. Félix Ribeiro. Mikio Naruse (1905-1969) costuma ser apresentado como “o quarto grande do cinema japonês clássico”, ao lado dos indisputados três grandes que são Mizoguchi, Ozu e Kurosawa. Quando uma Mulher Sobe as Escadas, o seu único filme que teve distribuição comercial em Portugal, prova que esta fórmula não é abusiva. Trata-se da história de uma gueixa de meia-idade, que dirige um bar e que deve escolher entre um casamento e a aquisição deste bar. Um magnífico retrato de mulher, na grande tradição do cinema japonês.

Saraband (2003) – Sexta-feira, 27 de novembro, 17h15, Sala M. Félix Ribeiro. Bergman regressa ao tema do fracasso das relações de um casal e às personagens de Cenas da Vida Conjugal (1973), numa obra que vai ainda mais longe na exposição desse fracasso e da crueldade e ternura entre este par, que reencontramos 30 anos depois. Quando Marianne (Liv Ulmann) sente que Johan (Erland Josephson) precisa dela, decide visitá-lo na velha casa de campo onde vive. Marianne depressa vê que o filho dele, Henrik, tem um amor possessivo pela filha, Karin, e que Johan só sente ódio e desprezo pelo filho. “Um concerto grosso para quatro instrumentos”, chamou Bergman ao seu último filme.

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