Morreu o cineasta de vanguarda Bruce Baillie (1931-2020)

(Fotos: Divulgação)

A notícia é avançada pelo New York Times, que foi notificado do óbito pela esposa do realizador avant-garde, Lorie Baillie.

Bruce Baillie, uma das principais referências da cena independente do cinema dos anos 1960 e 70 nos Estados Unidos, em particular da Costa Oeste, morreu esta sexta-feira na sua casa em Camano Island, Washington, aos 88 anos.

Nascido no Dakota do Sul em 1931, Baillie explicou em 1989 a Scott MacDonald (que publicou a entrevista no seu livro A Critical Cinema 2: Interviews with Independent Filmmakers) como entrou no mundo do cinema: “O que me levou a fazer filmes no início, na década de 1960 ou ainda antes, foi um interesse no teatro e a necessidade de atravessar o mundo através da arte. Quando era miúdo, no 6º e 7º ano em Aberdeen, Dakota do Sul, fizemos asneira e o castigo do reitor foi que tínhamos de apresentar uma peça numa assembleia escolar. No início, achamos uma pena muito severa, mas rapidamente gostamos da ideia. Mais tarde, pedimos se podíamos apresentar uma peça sempre que existissem assembleias escolares. Formamos um pequeno grupo teatral chamado The Acme Group. Fiz teatro durante todo o liceu e universidade. Depois, quando fiquei sozinho, pensei, já que estou sem o resto da malta, vou continuar a fazer mas no grande ecrã”

Depois de estudar na Universidade do Minnesota, em Berkeley, na Universidade da Califórnia, e na London School of Film Technique, o artista regressou aos EUA e em 1961 fundou a Canyon Cinema, uma exibidora que rapidamente se transformou em distribuidora que propunha uma saída para a exibição de filmes independentes, tornando-se – pelo caminho – num extenso arquivo e distribuidor de autores que trabalhavam com imagens em movimento. “Achava que fazer filmes e mostrá-los era algo que andava de mãos dadas (…) arranjei um emprego na Safeway, pedi um empréstimo e comprei um projetor“, explicou na entrevista de 1989, enfatizando noutra entrevista que a Canyon Cinema nasceu no seu quintal.

Fundador, juntamente com o seu colega cineasta Chick Strand, da Cinemateca de São Francisco, Baillie assinou nas décadas de 1960 e 1970 filmes experimentais como Mass for the Dakota Sioux (1964)Quixote (1965), Castro Street (1966) e Quick Billy (1970). Pessoalmente, e para além dos citados, ele gostava particularmente de To Parsifal (1963), “um filme um pouco estranho, mas bom”, segundo as suas palavras.

Quero descobrir os verdadeiros temas americanos, as imagens que mais se aproximam dos corações dos nossos cidadãos“, disse Baillie numa entrevista em 1962, ele que considerava a película do filme como um espaço onde o mundo físico e o mundo espiritual podiam intersectar-se, e que muitos filmes eram apenas uma forma de praticar: “Uma coisa estranha na arte de filmar é que não praticas como um pianista; fazes um filme sempre. Muitos dos filmes foram apenas prática“.

 

Uma das suas muitas pequenas obras-primas foi A Hurrah for Soldiers (1963) [na imagem acima], o seu primeiro filme a cores que dedicou ao belga Albert Verbrugghe, cuja esposa, Aline Van Den Eyke, foi morta por soldados indianos das Nações Unidas durante o cerco de Jadotville, na República do Congo, na África Central: “Geralmente não sou político – e especialmente nessa época não era. E não me mantinha muito informado do mundo e de eventos históricos. Mas, de repente, estava a ler a revista Life e havia uma fotografia trágica de um homem, Verbrugghe, a gritar: estes soldados tinham morto a sua esposa. Era uma imagem terrível. Não suportava a ideia de seres humanos pudessem fazer isso uns aos outros. Não consegui aguentar e comecei imediatamente a filmar (…) Foi o tributo a um homem que que perdeu a sua amada devido à total obediência a uma ideia (…) o filme foi também inspirado num evento nada ligado a este. Estava na praia e no paredão estava escrito uma daquelas coisas que as mentalidades retrógradas escrevem privadamente em locais públicos: ‘quero ser espancado por gangues de mulheres’.

Alguns dos fãs do seu trabalho, que afirmaram que o autor foi uma inspiração nas suas carreiras, foram George Lucas, Ben Rivers, Jennifer Reeves e Apichatpong Weerasethakul, enquanto Jonas Mekas referiu que o filme  All My Life (1966), que consiste numa panorâmica que percorre uma cerca emoldurada por um jardim de rosas até escapar para o céu azul, enquanto Ella Fitzgerald canta a canção homónima do título, era um verdadeiro “koan1.

Em 2016, a Cinemateca Portuguesa dedicou um programa – onde se encontrava Quick Billy  – ao cineasta tailandês, que estava em Portugal para dirigir um Seminário do curso de doutoramento em Estudos Artísticos da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH). 

Sobre Hollywood, numa outra entrevista, Bruce Baillie afirmou: “Hollwood… Evidentemente não existe essa tal entidade… Tente uma visita a Hollywood and Vine, um gueto de bugigangas de Taiwan, avenidas enevoadas, enfumaçadas e desordenadas, de onde desapareceram aqueles charmosos e inumeráveis imitadores de Charles Bronson, Lana Turner, Tyrone Power, e tantos outros, agora trabalhando no Castle Burgers ou na Hollywood YMCA1. Entretanto, o Verdadeiro Cinema, os Filmes Reais, ainda estão aparecendo, vindos de algum lugar, com perene indiferença a tudo, menos aos automóveis homicidas, aos roteiros infantis da UCLA (Universidade da Califórnia, Los Angeles) etc. E, entre o lixo constante, há aqueles filmes de génio mais que maravilhosos e assombrosos.

1 uma narrativa, diálogo, questão ou afirmação no budismo zen que contém aspectos que são inacessíveis à razão

Últimas