Sessões na Cinemateca – Escolhas de abril

(Fotos: Divulgação)

Nesta nova rubrica do C7nema encontram-se as nossas recomendações mensais sobre a programação da Cinemateca Portuguesa.

Este mês de abril a Cinemateca promete ter um programa particularmente eclético e oportuno, virado para temas muito atuais, e demonstrativo de como devemos mais do que nunca olhar para o passado, e para a história por ele traçada, para compreendermos os desafios do presente. Entre as cerca de 90 obras (de curta e longa duração) que serão exibidas, contam-se filmes de animação, documentários, produções nacionais, africanas, asiáticas, sul-americanas, filmes com quase 100 anos e outros acabados de estrear – uma amplitude e diversidade raras em qualquer programação. Para aproveitar o que de melhor a Cinemateca proporciona, eis a nossa seleção mensal.

Povos em Movimento – Migração, Exílio, Diáspora (Parte II)

Esta secção do programa de abril prossegue com uma temática já abordada no mês anterior na Cinemateca. Entre curtas e longas metragens, engloba dezenas de obras que dão ênfase ao cinema contemporâneo de modo a sublinhar a dramática situação atual das migrações. A ver:

Casa de Lava (1994) – Este filme de Pedro Costa, filmado na paisagem vulcânica de Cabo Verde, conta com Inês de Medeiros, que interpreta Mariana, uma enfermeira lisboeta que acompanha um doente em coma na viagem até à sua terra natal. Um filme atmosférico, em que a cor assume um papel central, e em que se pressente o talento poético deste realizador português. Sessão: Terça-feira, 30 de abril, 21h30

El Norte (1983) – Um casal de camponeses guatemaltecos, depois de um massacre perpetrado pelo exército do seu país, emigra no meio de grandes dificuldades para Los Angeles, onde tenta refazer a vida em procura do sonho norte-americano. Esta narrativa clássica, repleta de contrastes e apontamentos melodramáticos, apela sobretudo à empatia de forma potente. Sessão: Terça-feira, 23 de abril, 18h30

Fuocoammare (2016) – Vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim, este documentário de Gianfranco Rosi retrata a ilha de Lampedusa, no sul de Itália, cujos seis mil habitantes recebem semanalmente centenas de refugiados. O filme alterna entre o ponto de vista de Samuele, um rapaz local de doze anos, e o trabalho dos que se dedicam a salvar os náufragos. É de visionamento essencial para nos inteirarmos deste problema contemporâneo. Sexta-feira, 26 de abril, 18h30

Petit à Petit (1970) – Realizado por Jean Rouch, esta é a história de um empresário nigerino encarregue de construir o primeiro prédio em Niamey, capital do seu país, que vai a Paris ver como vivem as pessoas nas “casas de andares”. Rouch leva-nos numa divertida excursão de antropologia invertida, em que o africano observa com surpresa os estranhos hábitos dos parisienses. Sessões: Terça‑feira, 2 de abril, 15h30; Terça‑feira, 9 de abril, 19h00

Va, Vis et Deviens (2005) – Nos anos 80, grupos de judeus etíopes falacha são transportados clandestinamente para Israel, em que se inclui Yael, uma mãe que acabou de perder o filho. No seu lugar, a mulher leva um rapaz cristão de 9 anos que finge ser judeu para escapar à fome no seu país. A esta situação lamentável é acrescida a receção pouco tolerante em Israel, pintando um panorama lastimável em torno destas comunidades desprotegidas. Sessões: Terça-feira, 2 de abril, 18h30; Quarta-feira, 10 de abril, 18h30


A Cinemateca com a 12ª Festa do Cinema Italiano: Nanni Moretti

A Cinemateca acolhe, entre 5 e 14 de abril, a Festa do Cinema Italiano, que se estenderá primavera adentro por várias cidades portuguesas. Nesta sala dedica-se uma retrospetiva exaustiva à obra cinematográfica de Nanni Moretti, realizador contemporâneo incontornável na cena italiana. Das 24 obras que serão projetadas recomendamos:

Caro Diario (1993) – Um dos filmes mais populares do realizador, tendo-lhe valido o prémio de Melhor Realizador em Cannes. Estruturada em três segmentos, esta visão humorista da vida moderna em Itália retrata Moretti a representar-se a si mesmo e a deslocar-se na sua Vespa por um circo de frustrações, situações satíricas e outros tantos comentários sociais. Um olhar único no cinema moderno. Sessões: Terça-feira, 16 de abril, 21h30; Segunda-feira, 22 de abril, 15h30

Habemus Papam (2011) – Michel Piccoli interpreta o papel de um Papa recém-nomeado, após avanços e recuos na votação dentro do Vaticano, que encontra enormes dificuldades em assumir o papel da “personagem”, decidindo fugir e aventurar-se, fora do perímetro do Vaticano, entre os “comuns mortais”. Na sua ausência, Moretti, no papel de um psicanalista, tenta conversar com Sua Santidade e impor alguma terapia de exercício físico e desportivo entre os cardeais… Sessões: Quarta-feira, 24 de abril, 21h30; Segunda-feira, 29 de abril, 15h30

La Stanza del Figlio (2001) – O filme que valeu a Palme D’Or a Moretti e que o vê assumir de novo um papel de psicanalista que, desta vez, é ele próprio o sujeito emocionalmente afetado, aquando da morte do seu filho. Num tom menos cómico, com um guião e atuações intensas, este é um filme que sobressai na carreira do cineasta. Sessões: Quarta-feira, 17 de abril, 15h30; Segunda-feira, 22 de abril, 19h00


In Memoriam Stanley Donen

No seguimento do falecimento de Stanley Donen a 21 de fevereiro deste ano, a Cinemateca propõe-se a exibir alguns filmes deste realizador clássico. Consagrado pelo êxito incrível de Singin’ in the Rain (1952), Donen foi em grande parte responsável pela consolidação do género musical na indústria norte-americana. Destacamos:

Charade (1963) – Liderado por duas das caras mais distintas da era clássica de Hollywood, Cary Grant e Audrey Hepburn, esta comédia romântica, não sendo um musical, é contudo deliciosa. Uma aventura, que começa nos Alpes franceses e termina no coração de Paris, que segue esta dupla inesquecível entre diálogos e gracejos tão anedóticos quanto empolgantes. Sessões: Quarta-feira, 3 de Abril, 19h00; Segunda-feira, 8 de abril, 15h30.


Double Bill

Sob o tema do romance, as três sessões duplas que a Cinemateca planeia para as tardes de sábado de abril certamente agradarão tanto aos amantes de cinema clássico como aos que preferem filmes contemporâneos. Não podemos deixar de aconselhar nenhuma das três, cujo emparelhamento a Cinemateca justifica de forma tão convincente:

Harold & Maude (1971) + The Royal Tenenbaums (2001) – Harold & Maude é uma das mais extraordinárias comédias negras do cinema norte-americano e uma das suas mais invulgares histórias de amor (entre um jovem rapaz que procura todas as maneiras de cometer suicídio e uma mulher de 79 anos que lhe ensina os prazeres da vida). Um filme que marcou a sua geração e, nomeadamente, a contracultura do país, e que viria a deixar uma enorme influência em futuras gerações de realizadores. Exemplo disso, justamente, é The Royal Tenenbaums, outro filme de culto do cinema norte-americano e o mais celebrado na carreira de Wes Anderson. É um retrato cómico de uma família disfuncional e das histórias individuais de sobrevivência dos seus vários membros, juntando um mundo de referências musicais, literárias e cinematográficas que destacou definitivamente o estilo de um dos realizadores mais populares dos nossos tempos. Sessão: Sábado, 6 de abril, 15h30

Manhattan (1979) + She’s Gotta Have It (1986) – Dois retratos marcantes da cidade mais cinematográfica do mundo e que muito contribuíram para esse estatuto. De um lado, Manhattan, obra-prima de Woody Allen e exemplo máximo das relações sentimentais da metrópole nova-iorquina, assim como um retrato cru e realista, envolto da extraordinária e romântica fotografia de Gordon Willis, das manipulações que fazemos uns aos outros dentro delas. She’s Gotta Have It, primeira longa-metragem de Spike Lee (e lançada poucos anos depois de Manhattan), é um brilhante olhar sobre a Nova Iorque do outro lado do rio Hudson (a “república de Brooklyn”), onde, através de um humor mordaz, se retratam as três relações amorosas simultâneas de uma jovem mulher independente que se recusa a comprometer com qualquer uma delas. Sessão: Sábado, 13 de abril, 15h30

Brief Encounter (1945) + In the Mood for Love (2000) – Premiado em Veneza e nomeado para três Óscares, Brief Encounter, filmado a partir de uma história de Noël Coward, é o mais sugestivo exemplo do cinema “realista” britânico dos anos quarenta, assim como um dos seus filmes mais românticos e inesquecíveis. David Lean, longe ainda dos seus épicos históricos, conta, nas ruas de uma Londres acossada pela guerra, a história de um homem e de uma mulher casada que se conhecem numa estação de comboios e veem o seu amor crescer em segredo. A fotografia de Robert Krasker, explorando o preto e branco, as sombras e os vapores das locomotivas, é, também, um dos grandes trunfos do filme. In the Mood for Love, por sua vez, é um dos mais brilhantes e românticos filmes a sair do cinema de Hong Kong e, em termos gerais, dos últimos vinte anos. A extraordinária fotografia de Christopher Doyle, assim como a banda-sonora e a criação de ambientes no filme, viriam a criar, com a realização de Wong Kar-wai, uma marca ainda hoje insuperável, em elegância e estilização, na carreira do realizador e na relação entre duas personagens cujas carências se encontram, simplesmente, nos seus olhares e silêncios. Sessão: Sábado, 27 de abril, 15h30


Cinemateca Júnior

Dedicadas aos mais novos, mas seguramente capazes de fascinar espetadores de todas as idades, as sessões da Cinemateca Júnior, no Salão Foz, contam este mês com dois filmes históricos:

Pinocchio (1940) – Não será preciso dizer muito sobre este marco da cultura ocidental, a não ser que vê-lo no grande ecrã, talvez acompanhado por alguns pequenotes que o descobrirão pela primeira vez, é uma oportunidade especial. Sessão: Sábado, 13 de abril, 15h00

Nanook of the North (1922) – O primeiro grande documentário da história do cinema. O explorador-tornado-realizador Robert Flaherty parte para o Ártico para filmar o povo esquimó, e o que traz é uma crónica do esforço humano, contada de forma rigorosa e poética que lhe confere uma dimensão universal. Sessão: Sábado, 27 de abril, 15h00


Entre as restantes secções da extensa programação da Cinemateca, selecionamos ainda a projeção da secção «Inadjectivável», em que a Cinemateca elege uma incontornável obra-prima de Ingmar Bergman. Oportunidade única para a ver no grande ecrã, esta sessão é a não perder:

Fanny och Alexander (1982) – Um filme mágico, em que Bergman evoca a sua infância e o confronto entre o mundo epicurista, do prazer e alegria familiar, e a rigidez do puritanismo do padrasto. O “testamento” de Bergman no cinema é um dos seus filmes mais deslumbrantes a todos os níveis. Sessão: Terça-feira, 2 de abril, 21h30

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