Os 10 melhores filmes do ano por José Pedro Lopes (e também os 3 piores)

(Fotos: Divulgação)
Drive- Risco duplo 
 
Reza o bom procedimento de um cinéfilo reclamar que o ano presente foi fraco, desinteressante, carregado de produtos comerciais desinspirados e de um cinema europeu dormente. Que bom há para ver no cinema? Nada. Há meses que não há nada. Aliás, eu nem sequer vou ao cinema.
Bem, como tamanha patetice felizmente não me assombra – sou o tal bicho raro que gosta de cinema e que também gosta de ver filmes – fazer o Top 10 foi apenas e só complicado porque há bem mais do que 10 filmes brilhantes no ano que passou. Mesmo recorrendo apenas e só à diminuta lista de filmes estreados em sala, festivais nacionais e home video, o que me forçou a deixar de fora dois dos melhores filmes que vi nos últimos anos: ‘Balada Triste de Trompeta’ de Alex de la Iglesa, uma emocionante e comovente revisitação da história de Espanha, e o britânico ‘Attack the Block’, uma inspiradíssima aventura de ficção científica que é já um filme de culto.
Aqui fica a minha modesta lista dos 10 melhores filme que estrearam no nosso país.
1. DRIVE (Risco Duplo, Nicolas Winding Refn)
 
O que diferencia a arte cinematográfica de todas as outras artes e formas de contar uma história é a virtude de ‘Drive’: raro é o caso de um filme apresentar todos os seus talentos criativos no mais perfeito estado de graça.
 
O dinamarquês Nicolas Winding Refn (que também realizou o estreado ‘Valhalla Rising’) realiza DRIVE como um poema: entre pausas para respirar e suspirar, temos momentos de comovente emoção e pura beleza.
 
No filme seguimos como um condutor de Hollywood (Ryan Gosling) se envolve com a máfia quando tenta ajudar a sua vizinha (Carey Mulligan) e o seu filho.
 
De uma banda sonora electrizante a uma imagem enorme e luminosa, DRIVE é uma descarga de estilo e emoção, que surpreende até nas interpretações inesquecíveis de Albert Brooks e Bryan Cranston. Ouro em película.
 
2. WINTER’S BONE  (Despojos de Inverno, Debra Granik)
 
Ree (Jennifer Lawrence) é uma rapariga que vive numa pequena e pobre comunidade nas Montanhas de Ozark que tem de rapidamente encontrar o seu pai desaparecido para evitar que a sua família fique na miséria.
 
‘Winter’s Bone’ é uma viagem emocional, dura e nunca fácil pelas injustiças da interioridade e pela frieza das pequenas comunidades. Jennifer Lawrence (‘Like Cazy’, ‘The Hunger Games’) surgiu aqui e domina esta sincera e comovente história de uma rapariga bem mais forte do que parece, brilhantemente dirigida por Debra Granik. John Hawkes tem aqui mais um grande papel.
 
3. BEGINNERS (Assim É o Amor, Mike Mills)
 
Oliver (Ewan McGregor) fica com o cão do seu falecido pai Hal (Christopher Plummer) o qual se havia assumido homossexual nos últimos anos de vida, após ficar viúvo. Enquanto conhece e se apaixona por Anna (Mélanie Laurent) ele vai revisitando os altos e baixos da sua vida com um pai complicado. 
O cinema indie americano é feito de pérolas como este ‘Beginners’ – sensível e emotivo, mas divertido e apaixonante. Neste passeio pelos subúrbios de Los Angeles e pelos apartamentos vazios de Nova Iorque, McGregor e Laurent são um casal fantástico e enchem o ecrã de magia e romance, mas o show é todo roubado por Christopher Plummer – naquela que é certamente a melhor interpretação do ano. Imperdível.
 
4. MONSTERS (Monsters – Zona Interdita, Gareth Edwards)
 
Um fotógrafo tem de percorrer o território mexicano para encontrar e resgatar – em quarentena desde que ficou infestado de gigantes extra-terrestres – com uma rapariga mimada que procurava aventura.
 
Gareth Edwards filmou o filme quase todo sozinho com os actores Scoot McNairy e Whitney Able num projecto feito em estilo de ‘road-trip’ com imenso improviso. Este “Lost in Translation” da ficção científica, beneficia pela sincera e real relação entre os dois protagonistas e pelo impulso criativo de Edwards que armado com a sua câmara descobriu uma América Latina fantástica para criar ficção científica. Os monstros só aparecem no final, numa sequência que mostra que o amor, assim como o bom cinema, pode surgir nos sítios mais estranhos.
 
5. LOONG BOONMEE RALEUK CHAT (O Tio Boonmee que se Lembra das Suas Vidas Anteriores, Apichatpong Weerasethakul)
 
Boonmee, um fazendeiro de uma região interior da Tailândia, espera a morte na companhia dos diversos fantasmas que o tem acompanhado ao longo da vida.
 
Não há linha que distinga a vida e a morte, o real e o irreal, neste filme tailandês que tão facilmente diverte como comove, como arrepia nas suas revelações. Um exemplar raro de como o cinema tradicional asiático pode ser fresco e arrojado sem perder os moldes clássicos.
 
6. AKMAREUL BOATDA (Eu vi o Diabo, Jee-Woon Kim)
 
Este ‘blockbuster’ do cinema coreano é um todo o terreno absoluto: da divertida comédia ao revoltante horror, da mordaz intriga policial ao explosivo final, ‘I Saw the Devil’ é um épico em todos os sentidos da palavra.
 
Um polícia quer se vingar de um serial killer, mas para isso decide torturá-lo psicológicamente. Sempre que este vai mandar alguém, o polícia surge do nada e espanca-o terrívelmente. Depois deixa-o o fugir.
 
Min-sik Choi (o senhor Oldboy) está de volta ao activo e  é um vilão do piorio.
 
 
Eu vi o diabo 
7. RISE OF THE PLANET OF THE APES (Planeta dos Macacos: A Origem, Rupert Wyatt)
 
O que se passa em ‘Rise’ é constrangedor: um “remake/sequela/prequela/reboot” que é mais ambicioso, criativo e coerente que a saga original? Talvez seja apenas a excepção à regra… mas para isso teríamos que ignorar “X-Men First Class”, outro “reboot” que bate aos pontos abordagens anteriores.
 
Will é um cientista que procura a cura para a Doença de Alzheimer, experimentando geneticamente em macacos. Quando o seu departamento é desactivado, ele fica com um pequeno macaco inteligente, de nome César, a viver em sua casa. Mas o mundo é cruel, e eventualmente César cresce para perceber que ser um macaco no meio da humanidade não é ser igual.
 
Os efeitos digitais da WETA permitem a Andy Serkis viver e respirar a personagem de César, que é mais realista do que a maioria dos humanos que possamos ver num filme. Bem construído e brilhantemente doseado, ‘Rise’ tem o ‘climax’ final mais explosivo e emocionante de um ‘blockbuster’ de 2011.
8. KABOOM (Alucinação, Gregg Araki)
 
Smith é um estudante universitário obcecado por sexo rodeado por gente tarada, que descobre que algo terrível que pode provocar o fim do mundo está a ocorrer no campus.
 
Araki é um dos mais fortes nomes do “New Queer”, bizarro género cinematográfico que implica a promiscuidade absoluta entre as suas personagens. Em “Kaboom”, os heróis pensam tanto em sexo que são incapazes que evitar o pior, num filme que arranca como uma comédia e acaba como um filme de ficção científica pura, passando por dois ou três momentos de terror arrepiantes. Bizarro e original.
 
9. O BARÃO  (Edgar Pêra)
 
Quem manda aqui sou eu! Grita o Barão ao seu convidado, um investigador temeroso que está instalado na sua enorme mansão. Mas os segredos de o Barão são muitos, e a noite será alucinante.
 
O texto de Branquinho da Fonseca era propício a um filme português verdadeiramente único, mas Edgar Pêra leva a sério a tarefa de criar um original filme de horrores clássico com tradições e raízes bem lusitanas. Dos diálogos brilhantes a um delírio visual arrojado, ‘O Barão’ é um filme português “impossível”.
 
10. EXIT THROUGH THE GIFT SHOP (Banksy Pinta a Parede, Bansky)
 
Documentário falso (ou não) sobre o movimento de street art, Bansky e a ascenção do Mr. Brainwash.
 
Mentira ou verdade, esta viagem pelo mundo dos graffitis e da cultura urbana alternativa é estimulante e cativante. No final, o compromisso do documentário com a verdade é nulo. 
Os piores filmes de 2011 foram (tendo em consideração que considero votar no pior injusto, já que por natureza evito ver filmes que não me interessam e que, por natureza, seriam dos piores na minha apreciação):
 
1. Dream House (Uma Casa de Sonho)
2. Green Lantern (Lanterna Verde) 
3. Trolljegeren (O Caçador de Trolls) 
 
José Pedro Lopes 

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