Será difícil de imaginar nos dias de hoje, mas nos anos 90 e até 1996, o cinema de terror encontrava-se praticamente morto, com muitos filmes a enfrentarem edições directas para video, e com a qualidade a degradar-se cada vez mais. Todas as ínfinitas sequelas das sagas de Freddy Krueger, Jason Vorhees, ou Michael Myers não ajudavam à causa, e tinham cansado as audiências. Bem, todas menos uma. Em 1994, Wes Craven voltou às personagens que tinha criado em “Pesadelo em Elm Street”, e em “O Novo Pesadelo de Freddy Krueger” mexia mais que nunca com as coordenadas da metaficção, diluindo ficção com realidade, e conseguiu assim refrescar uma saga que já há muito andava perdida… mas o público não se aventurou, e o filme tornou-se mesmo o filme que menos facturou nas bilheteiras do “franchise”, com uns meros 18 milhões de dólares no mercado norte-americano. Apesar deste revés, podemos considerar este “Novo Pesadelo” como a semente para o que se seguiria… terá sido certamente uma inspiração para o argumento que Kevin Williamson se encontrava a escrever intitulado “Gritos”, de tal modo que Craven foi o escolhido para realizar o que viria a tornar-se no seu maior sucesso comercial até à data.
«Gritos» (1996)
Em Dezembro de 1996, “Gritos” tem uma estreia modesta, arrecadando pouco mais de 6 milhões de dólares no seu primeiro fim-de-semana nos Estados Unidos, e ocupando a 4ª posição do top 10 dos filmes mais vistos. O filme conta a história de um assassino com uma máscara altamente referencial que se diverte a torturar as suas vítimas com jogos cinéfilos antes de as matar. O tópico: filmes de terror “clássicos”. A personagem principal, Sidney Prescott (Neve Campbell, na altura semi-conhecida pela série “Adultos à Força”, para sempre associada a esta saga desde então), torna-se numa Laurie Strode para toda uma geração que não tinha qualquer “scream queen” como referência no cinema actual. Mas é a sequência inicial de 12 minutos, na qual a actriz mais famosa do elenco até à altura é despachada com mestria implacável que alimenta ainda mais o falatório e o “boca-a-boca”. E semana após semana, num fenómeno como pouco se viu na história do “box-office”, “Gritos” vai mantendo espectadores ou até aumentando o seu rendimento face à semana anterior na tabela dos mais vistos nos cinemas, e em Junho de 1997 atinge finalmente a marca dos 100 milhões de dólares. Frases como “Qual é o teu filme de terror favorito?” e todas as regras para se sobreviver num filme de terror entraram instantaneamente para a cultura pop do final do milénio. De tal modo que depressa se apressou a fazer uma sequela, e depressa surgiram filmes que nada mais eram do que o que “Gritos” mais gozava (se bem que era um gozo sempre carinhoso): “Sei o Que Fizeste No Verão Passado”(1997), “Mitos Urbanos”(1998). O “slasher” para adolescentes estava definitivamente de volta. Hoje, será difícil medir o impacto que este filme teve, não só neste subgénero, como no cinema de terror contemporâneo em geral. E será ainda mais difícil encontrar filme tão influente como este para os “scary movies” nas últimas duas décadas – talvez só mesmo a importação de “Ringu” com o remake “The Ring” (e consequente importação de todo o género “J-horror” para o Ocidente) se compare minimamente.
«Gritos 2» (1997)
Como em todo o filme de terror de sucesso que envolva um homem mascarado, é preciso ter sequela. E esta chegou apenas cinco meses após a saída do original das salas! Poder-se-ia com isto pensar que estaríamos perante uma manobra fácil de ganhar dinheiro… mas “Gritos 2” não só mantinha a mesma equipa do original (realizador, argumentista, elenco, etc.), como conseguiu com sucesso replicar a mistura sempre complicada de humor com autênticos momentos de suspense. Isto tudo com mais sequências de cortar à faca, mais mortes, uns quantos momentos particularmente chocantes para qualquer um, e um assassino que aparenta ser mais sobrenatural/omnipresente que o costume, como manda uma sequela. E claro, Sidney Prescott, agora já na faculdade, de novo como alvo principal. Em suma, um filme que viria no geral a ser considerado uma excelente sequela, mimicando o sucesso do original também nas bilheteiras.
«Gritos 3» (2000)
A história de “Gritos 3” é um pouco mais conturbada, e talvez por isso, o filme ainda hoje seja visto por muitos como o filho bastardo da saga. Kevin Williamson escreveu um primeiro argumento, mas este não foi aprovado. E dado que o argumentista estava ocupado com a série “Wasteland”, a qual viria pouco tempo depois a ser cancelada. Para o seu lugar, vem Ehren Kruger, fresco do sucesso de “O Suspeito da Rua Arlington”, e a ele coube a tarefa de escrever um argumento a partir de notas gerais que Williamson tinha deixado.
A acção decorre agora nas filmagens de “Facada 3” (segunda sequela do filme sobre os acontecimentos do original “Gritos”), e os principais alvos são Hollywood e o seu “star system”, com a introdução de novas tecnologias pelo meio. “Gritos 2” introduziu o telemóvel na série como método mais ambulante de perseguição… “Gritos 3” tem um dispositivo que permite replicar vozes de todas as personagens que forem precisas. Um conceito algo absurdo, mas que funciona q.b.. Além disso, o filme brinca consigo próprio, com as diferentes versões que o próprio filme gerou (com três finais diferentes possíveis) a serem trazidas para o enredo que rodeia as filmagens de “Facada 3”. Convém referir também que em 2000, a Internet continua a crescer e a saída de informação torna-se ainda mais fácil que há três ou quatro anos atrás.
Este seria supostamente o último filme do “franchise”, o “último capítulo”, e foi promovido como tal. Talvez por esse motivo, o filme tenha conseguido o terceiro melhor fim-de-semana de abertura para um filme de classificação “R” no mercado norte-americano (o equivalente a “M/16” por cá) até essa data: 34.7 milhões de dólares nos primeiros três dias. Mas a queda seria bem maior, e o filme aguentaria apenas quatro semanas no top 10, para um total de 89 milhões de dólares, ficando cerca de 10 milhões atrás dos filmes anteriores quando contabilizados todos os mercados (162 milhões vs. 172 de “Scream 2” e 173 de “Scream” dos filmes anteriores). Ainda assim, e somando tudo, os três filmes somam mais de meio milhão de dólares de receitas de bilheteira. E isto sem contar com as receitas sem dúvida altíssimas do mercado de vídeo, mais direitos de transmissão.
«Gritos 4» (2011)
Durante quase uma década, o público acreditou mesmo que não iria haver um “Gritos 4”. Wes Craven ainda detinha os direitos, e declarações de actores como Neve Campbell a afirmarem que não voltariam asseguravam que a hipótese de um quarto filme permanecesse sempre uma miragem…
… Até que em 2009, surge em definitivo a notícia de um quarto filme. Perante o receio inicial deste ser um capítulo claramente desnecessário e poder estragar todo o conceito do terceiro filme (para os poucos que se importaram realmente com este), o que é certo é que “Gritos 4” volta a juntar a equipa do original e da primeira sequela, o que só por si, lhe confere um certo grau de antecipação.
“Gritos 4” segue a acção da trilogia. Passaram-se 10 anos desde os eventos de “Gritos 3” e Sidney Prescott acaba de escrever um livro de auto-ajuda e volta a Woodsboro para promover o seu livro, onde reencontra familiares… E bem, escusado será dizer que há novo(s) assassino(s) na cidade, e que há muita carne fresca.
Com os trailers e primeiros visionamentos a serem bem recebidos pelos fãs, será que temos uma agradável surpresa a caminho? Estará esta nova geração que cresceu rodeada de Internet e de todo o conceito de “redes sociais” preparada para aceitar este novo filme, que promete uma revisão de tudo o que se passou na última década? Poderá “Gritos 4” ser o “Toy Story 3” do seu género? Teremos que esperar só mais um pouco para responder a estas questões.
André Gonçalves

