Wes Craven: – o mestre dos Gritos

(Fotos: Divulgação)
A saga «Scream» (Gritos) está de regresso ao nosso país. No trailer, a certo ponto, podemos ler “do mestre do suspense Wes Craven”. Este facto é alvo de um aceso debate no seio dos amantes do terror: se por um lado Craven é o autor de vários filmes que mudaram o cinema de terror, como «A Nightmare on ElmStreet» e «Scream», muito frequentemente ele excluiu-se e foi excluído dos circuitos de culto.
 
Nascido em Cleveland, no Ohio (EUA), Wes Craven estudou na realidade Psicologia e Literatura.  O seu primeiro emprego foi como professor, e contava já com 33 anos de idade quando se arriscou na realização (após vários trabalhos como técnico em rodagens).
 
A sua estreia foi o quase-marginal, «The Last Houseon the Left» datado de 1972, um dos primeiros grandes filme-choque do cinema de terror. O filme era uma espécie de remake underground violento de «The Virgin Spring» de Ingmar Bergman. Nele, Craven mostra-nos como os pais de uma rapariga violada por um gang de malfeitores cometem os actos mais atrozes para se vingarem. A sociedade americana – dividida nos anos 70 entre moralistas e liberais – recebeu «Last House» como um soco no estômago: Craven desmascarava como a violência podia vir de todos os lados, e fazia parte da natureza humana.
 
 
 
Cinco anos mais tarde, Craven consegue financiamento para um segundo filme e volta a incendiar o mercado americano: «The Hills Have Eyes» é uma espécie de passo em frente face ao sucesso recente de «The Texas Chainshaw Massacre» de Tobe Hopper. Aqui,  Craven mostra-nos como uma família de hippies é atacada por um grupo de criaturas estranhas no interior na América. O terror de sobrevivência mistura-se com o cinema de aventuras,  e Craven cria aqui o seu primeiro monstro iconográfico: Pluto, um gigante canibal.
 
Apesar de dois grandes sucessos, Craven mantém-se como um realizador de baixo orçamento profundamente enraizado no cinema de terror. «Swamp Thing» de 1982 revela a vontade de Craven chegar ao grande público comercial, mas falha. No entanto, em 1984, o realizador americano cria o ícone derradeiro do cinema de terror comercial: Freddy Krueger.
 
«A Nightmare on Elm Street» é, inquestionavelmente, o filme mais importante da sua carreira. Nele seguimos um grupo de amigos, liderados por Nancy, que são assombrados nos seus sonhos por um homem misterioso, cheio de cicatrizes e com facas no lugar de dedos. O público e a crítica rendem-se à obra de Craven, que conquista o mundo e estabelece Freddy Krueger como o monstro de referência do cinema de terror. Seguiram-se muitas sequelas e imitações, das quais Craven tentou manter distancia.
 
 
 
No entanto, comete o primeiro erro da sua carreira: em vez fazer a sequela de «Nightmare»,  fez dois filmes. O primeiro é «The Hills Have Eyes II» de 1985 que fracassa na bilheteira e é ridicularizado. O próprio Craven veio a admitir anos mais tarde que o fez pelo dinheiro e que tem vergonha dele. O segundo é o «thriller» para televisão «Chiller», outro fiasco.
 
Em 1988, com o cinema de terror em apuros nas bilheteiras nos EUA, Craven experimenta formulas diferentes. «The Serpent and the Rainbow» (estranhamente chamado em Portugal de «A Noite dos Mortos Vivos») explora as lendas voodoo num produto curioso. No ano seguinte, «Shocker» tenta criar um novo «Freddy», cómico e sádico, mas sem sucesso. E em 1991, «The People Under the Stairs» confirma que Craven não conseguia sair do registo de realizador de terror underground, com muita vontade mas pouco dinheiro e pouca capacidade de mobilizar o grande público.
 
Talvez rendido ao dólar, Craven aceita fazer um novo «Nightmare on Elm Street». No entanto, é aqui que se revela mais criativo. “Wes Craven”s NewNightmare”, de 1994, é um filme dentro de um filme, e mostra como a equipa de uma suposta sequela de «Pesadelo em Elm Street» está a ser atacada pelo verdadeiro demónio por detrás da figura de ficção a que chamamos de Freddy Krueger. Brilhante e original, «Wes Craven’s New Nightmare» dá o mote para uns anos 90 mais referenciais e onde o terror assume que tem de pensar.
 
O culminar na nova tendência vem precisamente pela mão de Craven: «Scream» (Gritos) de 1996. Adaptando o argumento de Kevin Williamson, este «slasher» referencial mostra como um grupo de adolescentes que conhece o cinema de terror de trás para a frente usa este seu conhecimento para enfrentar um homicida local. O público delira e a crítica aplaude de pé como Craven mostra que o cinema «slasher» é a sua casa e que está disposto a trazê-la de volta ao topo das bilheteiras.
Craven assina no ano seguinte «Scream 2» (outro sucesso critico e comercial) e o desorganizado «Scream 3» (também um sucesso comercial). Em 1999, o realizador americano experimenta fazer um drama com «Music of the Heart» com Meryl Streep a ser nomeada para um Óscar.
 
 
 
No entanto, em 2005 ele volta ao cinema de suspense em dose dupla: «Cursed» é um filme de lobisomens do mesmo escritor de «Scream», e «Red Eye» é um thriller passado num avião. Ambos foram recebidos com muita relutância.
 
Entretanto, Craven parece cada vez mais afastado dos demais realizadores de terror – muito sob o estigma injusto de ele ser um autor comercial. A série “Master of  Horror” reúne todos os nomes do terror americano, menos Craven.
 
Os fãs do terror dividem-se também na hora dos “remakes”. Craven capitaliza com os seus filmes antigos ao autorizar “remakes” de todos eles mas decide acompanhá-los de perto como produtor. Uns atacam Craven por corroborar com os “remakes”. Outros reconhecem que «The Last House on the Left» e «The Hills Have Eyes» são, provavelmente, os melhores “remakes” de terror dos anos 00 graças à supervisão de Wes Craven. Aliás, o detestado «A Nightmare on Elm Street» poderia ter sido muito diferente, se Craven não tivesse sido ignorado pelo produtor Michael Bay.
 
Craven volta a realizar fora do terror na antologia «Paris, je t’aime» de 2006, conciliando isso com inúmeros filmes onde é produtor: «The Breed», «Feast» ou os mencionados remakes.
 
Em 2010, no entanto, ele decide levar a ecrã um argumento seu já antigo (Craven não realizava um argumento seu desde os anos 80): «My Soul to Take». Confuso e desorganizado, o filme revela um realizador de terror com vontade de inovar mas a fracassar redondamente.
 
 
 
Agora, em 2011, teremos «Scream 4» a reabrir a sua segunda saga mais popular. Craven tem aqui a oportunidade de tirar a dúvida aos fãs do cinema de terror sobre o seu real valor. Será ele o génio do terror que assinou filmes tão underground e revolucionários como «The Last House on the Left» e «The Hills Have Eyes», e que salvou o terror comercial por três ocasiões com «A Nightmare on Elm Street», «New Nightmare» e a trilogia «Scream»? Ou será ele o realizador de terror rotineiro de «Cursed» e «My Soul to Take»?
 
Para confirmar, a gritar, dia  21 de Abril.
José Pedro Lopes

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