Apesar de um momento de polémica, ensaiado após uma pergunta sobre as posições da Alemanha face ao conflito do povo palestiniano, a conferência de imprensa n.º 1 da 76.ª Berlinale — com o júri do Urso de Ouro — decorreu sob o signo da moderação, num coro de respostas sobre o poder transformador do cinema. O presidente da comissão que julga o prémio, o alemão Wim Wenders, deu o tom da conversa ao afirmar:
“Vivemos na discrepância: de um lado, há pessoas que querem viver as suas vidas; do outro, temos governos que têm outras ideias”, disse o realizador de sucessos como Paris, Texas (1984), vencedor da Palma de Ouro. “A arte tem empatia; a política, não.”
Além do cineasta germânico, aclamado por longas-metragens como Perfect Days (2023), o júri da Berlinale integra a atriz sul-coreana Bae Doona; o cineasta nepalês Min Bahadur Bham; o cineasta e arquivista indiano Shivendra Singh Dungarpur; a realizadora japonesa Hikari; o realizador norte-americano Reinaldo Marcus Green e a produtora polaca Ewa Puszczyńska. O trabalho iniciou-se esta quinta-feira e prolonga-se até ao dia 21, data do anúncio dos prémios.
“É o primeiro dia. Temos 22 filmes para avaliar. Há muito a fazer”, explicou Dungarpur, depois de afirmar que o cinema é um templo. “O que mais conta quando se faz um filme é a jornada para o realizar.”
Quando a Palestina foi mencionada, numa pergunta sobre a posição do governo alemão face ao Médio Oriente, Ewa pronunciou-se: “Os filmes não são políticos pelos meios como essa palavra, ‘política’, é entendida. São políticos pela forma como levam as pessoas a falar, a debater. Só produzi filmes que tivessem uma importância pessoal para mim.”
O cineasta nepalês Min Bahadur Bham recordou que a sua aldeia não tinha eletricidade e que a sua geração foi a primeira a afirmar uma voz própria no Nepal. Destacou ainda a emergência de novas vozes asiáticas no cinema de autor.
Já Reinaldo Marcus Green, realizador de King Richard (2021), abordou a força do streaming na indústria:
“Os meus filhos já não consomem filmes da mesma forma que eu consumia. As coisas estão a mudar, mas é preciso saber abraçar as oportunidades de fazer um filme.”
Questionado sobre a fronteira entre facto e ficção, Wenders afirmou: “Os grandes filmes nasceram de histórias reais e muitas realidades assentam em mitos. Não deve haver divisão. Amo os filmes que partem do real.”
A Berlinale decorre até 22 de fevereiro.


