Akinola Davies Jr., a voz autoral de uma outra Nollywood

(Fotos: Divulgação)

Tem sido um ano forte para as filmografias africanas nos maiores festivais do mundo, com destaque para a Tunísia, o Egito, a África do Sul e, em especial, a Nigéria, que saiu de Cannes com o troféu Caméra d’Or, atribuído a My Father’s Shadow (2024), filme que poderá sair de Marraquexe com a Estrela de Ouro, a julgar pelo boca-a-boca fervoroso em torno do seu realizador, Akinola Davies Jr. Há uma forte campanha para que concorra ao Óscar, representando o Reino Unido, país de nascimento do cineasta por detrás desta narrativa comovente, integrada no conjunto dos 13 filmes em competição no Festival de Marraquexe.

“A Europa e os Estados Unidos habituaram-se a falar dos países africanos sempre com base em estereótipos, por isso é libertador ver surgir uma nova vaga de cineastas que fale sobre África a partir de vivências locais. É uma forma de substituir preconceitos por experiências”, afirmou Akinola ao C7nema, em Marrocos, antes de ministrar uma palestra a estudantes.

O realizador conversou também com aspirantes a artistas visuais durante a sua passagem pela Mostra de São Paulo, onde My Father’s Shadow (2024) venceu o Prémio da Crítica e uma distinção de Direção de Arte. A narrativa decorre em 1993, quando o cineasta ainda era criança, e concentra-se num único dia em Lagos, durante a crise eleitoral do início da década de 1990: nesse contexto, um pai afastado das duas filhas pequenas procura uma reaproximação ao longo de uma jornada pela extensa cidade, enquanto a agitação política ameaça a sua casa e o seu futuro. Sope Dirisu dá vida à protagonista.

“Sope já era uma intérprete muito experiente, mas pedi-lhe que aprendesse duas línguas e alguns dialetos, para se aproximar do que se espera da coloquialidade nigeriana. Lembro-me de lhe ter dito claramente: esta protagonista não é o meu pai… é um pai nesta história. Ser pai é um ato de generosidade, porque educar é um trabalho duro. Ainda assim, não vejo esta figura paterna como uma heroína. Ela é imperfeita. Todas somos. O que procurei nesta condição masculina foi expressar vulnerabilidades”, explica Akinola, anteriormente conhecido pela curta-metragem Lizard (2020), que estreou no Festival de Sundance, onde venceu o Grande Prémio do Júri, e foi igualmente exibida no BFI London Film Festival. “Construí esta história com a consciência de que, nos anos 1990, existia um otimismo entre os nigerianos, que viam a possibilidade de o país se tornar uma potência. Essa hipótese perdeu-se num processo eleitoral que nunca chegou a concretizar-se.”

Apesar das adversidades políticas, a Nigéria consolidou uma das indústrias audiovisuais mais produtivas do mundo: Nollywood. Lá são produzidos cerca de 2,5 mil filmes por ano, a maioria lançada em formato digital.

“A nossa indústria, ainda muito jovem, possui uma beleza ímpar, porque deu espaço a muitas vozes, incluindo uma ala mais artística, com a qual me identifico”, acrescentou Akinola.

Marraquexe termina este sábado.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/o3vt

Últimas