O método Laurence Fishburne: surpreender

(Fotos: Divulgação)

Um problema técnico acabou por marcar uma parte significativa da conversa entre Laurence Fishburne e o programador e curador de Locarno, Giona A. Nazzaro, durante a secção Conversa do 22.º Festival de Marraquexe. A meio do encontro, o vídeo com excertos da carreira do ator deixou de ser projetado e o sistema de som do microfone falhou. Indiferente ao imprevisto, o eterno Morpheus de Matrix (1999–2003) fez valer a sua voz potente, apurada ao longo de anos de formação nos palcos norte-americanos, e lançou-se para a plateia: “Vocês são um povo lindo!” O gesto, recebido com entusiasmo, manteve o público nas cadeiras do auditório Meydene.

Havia, afinal, muito ainda por partilhar, sobretudo devido à ligação afetiva que Fishburne desenvolveu com a cidade marroquina que acolhe um dos festivais mais prestigiados do circuito internacional, já na reta final do calendário anual. Prestes a estrear Stay The Dreamer (2025), onde interpreta um respeitado líder religioso ligado à luta antirracista, o ator regressou também aos ecrãs este ano com Amateur (2025), ao lado de Rami Malek. Em 2024, fez ainda uma breve mas significativa participação em Megalopolis (2024), novo projeto de Francis Ford Coppola, seu colaborador de longa data.

“Sempre procuro formas de surpreender o público”, afirmou o actor, em atividade desde o final da década de 1970, quando participou em Apocalypse Now (1979). “É um filme lendário, mas profundamente problemático, e demorou quase dois anos a ser concluído. Ainda assim, foi decisivo para me tornar quem sou hoje”, contou ao C7nema, numa entrevista concedida em solo francês. “Foi Coppola quem, de facto, me apresentou à arte. Deu-me uma direção e um propósito.”

Após a nomeação ao Óscar pela sua interpretação de Ike Turner em Tina – What’s Love Got to Do With It (1993), assumiu o papel principal em Otelo (1995), ao lado de Irène Jacob e Kenneth Branagh. Foi durante essa fase de afirmação que manifestou publicamente a vontade de adaptar O Alquimista (1998), o fenómeno editorial de Paulo Coelho — um projecto que, apesar de várias tentativas, nunca chegou a concretizar-se. Ainda assim, Fishburne acumulou uma carreira marcada por títulos de culto, entre os quais Boyz n the Hood (1991).

O eterno Morpheus no Teatro Meydena – Foto de Rabi Loukili

“Era uma equipa maioritariamente negra e filmávamos num bairro onde vivi quando me mudei para Los Angeles. O nosso objetivo era garantir que John Singleton não falhava em nada. Ele falava a linguagem do Cinema, cresceu junto de um cinema drive-in”, recordou, entre risos, na conversa com Nazzaro que revisitou ainda as suas colaborações com Abel Ferrara e Bill Duke, numa fase em que o ator se tornou presença constante no grande ecrã.

Foi também nesse período que deu vida a Morpheus, ao lado de Keanu Reeves, em Matrix, filme que descreveu em Marrakech como “um grande marco”. Em recente conversa com o C7nema, explicou que a obra das irmãs Wachowski “transformou radicalmente a abordagem da ficção científica, ao introduzir a filosofia numa narrativa futurista”. Segundo Fishburne, “a história do escolhido, do messias que salva a humanidade, é ancestral, mas foi recontada através da tecnologia e de símbolos contemporâneos. Curiosamente, senti algo semelhante ao ler O Alquimista: uma narrativa antiga contada de forma universal e atual”.

O Festival Internacional de Cinema de Marrakech decorre até 6 de Dezembro.

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