Os Indesejáveis: “Liberdade, Igualdade, Fraternidade… é tudo bluff”, diz Ladj Ly

Nos cinemas a 31 de outubro

Após o grande sucesso de “Les Misérables” (Os Miseráveis) em 2019, Ladj Ly regressou em 2023 aos cinemas com “Os Indesejáveis” (Bâtiment 5), o segundo volume de uma trilogia, que estreia nas salas a 31 de outubro. E, apesar de beneficiar de melhores meios de produção que lhe permitiram evoluir além da figura de cineasta de “câmara trémula na mão”, o realizador confessa que continua a ser a “ira” a movimentar o seu cinema, pelo observar nesses bairros “a todo o tipo de injustiças”.

Ladj Ly

Ao contrário de “Os Miseráveis”, cuja ação se focava em Montfermeil, onde o realizador cresceu, este segundo filme desenrola-se numa cidade dos subúrbios fictícia, Montvilliers, que para Ladj representa “muitas outras localidades dos subúrbios parisienses”. O foco agora não são os conflitos raciais e étnicos inerentes no bairro, mas a relação precária dos habitantes com as autoridades em plena crise habitacional. “A crise de habitação é um grande problema, não apenas em França, mas em todas as grandes cidades do mundo”, diz Ladj, acrescentando que sente que os políticos preferem meter esta questão de lado, em nome de outra coisa qualquer. “É preciso vontade para realmente resolver as coisas, mas como a habitação continua a ser um negócio muito lucrativo, eles fecham os olhos. Temos uma lei que diz que em cada cidade deve haver 20% de alojamento social, mas os presidentes das autarquias preferem pagar uma coima por não cumprirem a lei. Por isso, o termo ‘lei’ tem muito que se lhe diga”.

Em “Os Indesejáveis”, no centro das atenções estão as decisões de um político de direita, Pierre Forges (interpretado por Alexis Manenti, que vimos em “Os Miseráveis”), que assume a liderança da autarquia e quer avançar à força com um novo plano habitacional, o qual não consegue abarcar todos os desalojados que esse mesmo plano vai criar. “O filme partiu da inspiração em Claude Dilain [falecido presidente da câmara de Clichy-sous-Bois de 1995-2011], mas da ideologia de esquerda passámos para a direita“, explica Ladj. “Inspirei-me muito em políticos de direita e extrema-direita para criar o Pierre. Não foi um político em particular, mas vários”. 

Alexis Manenti

Já no lado oposto de Pierre está Haby, interpretada com maestria por Anta Diaw, que vai fazer de tudo, do ponto de vista legal, sem perder o ativismo, para expor a injustiça em prática no seu bairro. “Descobri a Anta Diaw num casting selvagem”, conta-nos. “Tivemos bastantes discussões. Ela habita num bairro com a mesma problemática que vemos no filme. Havia um grande plano de renovação urbana que implicava a destruição de parte do bairro. Ela conhecia bem o tema, o que facilitou bastante o trabalho. Falámos muito, mas na parte da minha direção à sua personagem, tive muito pouco a dizer-lhe. Ela sabia como estar e como fazer as coisas. Foi tudo muito fluido, natural”. De forma diferente a Haby, o seu irmão no filme é todo ele “raiva”. O cineasta explica como desenhou essa personagem: “Ele vive com um sistema injusto a vida toda. Quando cresces assim, conscientemente libertas a raiva. Essa personagem reflete muitas que vivem no bairro, enraivecidas pelas constantes humilhações policiais, sociais e políticas. Aqui o problema são os políticos, que estão no topo e mandam a polícia atuar. Mesmo quando estes dizem que não há nada de ilegal, eles forçam a polícia a atuar.”

Um olhar sobre França e o Cinema Francês

Embora reconheça que o sucesso de “Os Miseráveis” ajudou a que as instituições francesas (como o CNC) e produtoras tenham ganho uma nova atenção quanto a novas vozes no cinema francês, ele diz que ainda há muito a ser feito, dando o exemplo da protagonista do seu filme, interpretada por Anta Diaw (em modo ‘força da natureza’), que depois de “Os Indesejáveis” ainda não conseguiu o seu espaço num cinema francês no qual “tem muita dificuldade em se rever”: “Respeito o cinema francês pela hipótese que temos de filmar, mas não me revejo nele. Por isso uso o meu cinema para contar as minhas histórias. Veja-se o caso da Anta, que tem uma interpretação espetacular. Depois deste filme ainda não recebeu nenhuma proposta. Porquê? Porque é negra e mulher. Isto é triste. A realidade é que apesar de falar-se muito de diversidade no cinema francês, ela não existe em termos práticos”.

Anta Diaw

E se, quando falámos com o cineasta em San Sebastián por ocasião de “Os Miseráveis”, havia alguma forma de esperança para com o futuro, desta vez Ladj Ly revelou-se muito mais pessimista: “As coisas vão piorar, não melhorar. O nosso papel é de testemunhar e contar o que se passa. Mas estamos a caminhar para o caos total. O estado de França atualmente é lamentável. Quando vemos um ‘golpe de estado’ como aconteceu recentemente, em que a esquerda ganhou as eleições, mas não lhe foi permitido governar. Perderam as eleições e estão no poder. Onde ficamos nós? Só em África vemos coisas como estas. É nas ex-colónias que vemos este espetáculo de marionetes. Agora também em França. Liberdade, Igualdade, Fraternidade… é tudo bluff. Temos um bando de impostores, escroques, mentirosos e manipuladores que perpetram todo o tipo de atrocidades em todo o mundo. Tornamo-nos monstros. A França é de direita e extrema-direita. Eles tomaram o poder. É uma vergonha. E, no fim do dia, ainda falamos em democracia. A mensagem que eles passam à nova geração é calem-se. Vocês não têm nada a dizer. Por isso, não tenho esperança. Para mim, caminhamos para a guerra. Essa guerra já está em marcha no mundo. Veja como se massacram os palestinos. Veja-se como se massacram os árabes. Os árabes não têm valor nenhum para eles. Estão todos a borrifar-se para eles. Veja-se as imagens de crianças mortas. E ninguém liga. É atroz, mas tornou-se ‘normal’”.

O Futuro

Prometendo fazer “explodir” a sua “cólera” no terceiro filme da sua trilogia, que o realizador antevê que possa nos próximos anos, Li apenas nos diz que o projeto é passado nas décadas de 1980 e 1990, as quais representaram “o início do fim”.

Até lá, ele vai continuar a trabalhar na Kourtrajmé, um coletivo de artistas que trabalham no campo audiovisual, estando na sua fundação Kim Chapiron, Toumani Sangaré e Romain Gavras. Prometendo continuar a “explorar”, realizar “experiências” e “desenvolver essa escola” no panorama audiovisual, Ladj tem um outro projeto em desenvolvimento, o qual o vai levar ao Mali, o país de origem dos seus pais: “Estou a escrever um filme sobre o que se passa no Sael. É um tema que me interessa e sobre o qual já me debrucei num documentário (365 Jours au Mali). E tenho mais um filme que estou a trabalhar duramente”.

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