“Portugal tem a generosidade da alma”, diz Gregório Duvivier, da proa da “Arca de Noé”

(Fotos: Divulgação)

Prestes a encenar O Céu da Língua no Teatro Aberto, em Lisboa, de 14 de novembro a 1° de dezembro, antes de migrar para o Teatro Sá da Bandeira, no Porto, Gregório Duvivier volta aos ecrãs do seu país de berço, o Brasil, neste fim de semana, como a voz de uma barata de Arca de Noé. Esta animação traz uma constelação de estrelas e músicos no elenco vocal. A produção, assinada por Sérgio Machado e Alois Di Leo, fez a sua estreia na Mostra de São Paulo, em outubro, e candidata-se agora ao sucesso comercial, apoiada em poemas de Vinícius de Moraes (1913-1980) na base das suas canções. Dois ratinhos (interpretados por Rodrigo Santoro e Marcelo Adnet) tentam entrar na embarcação sagrada do Velho Testamento sob a chuva torrencial do Dilúvio e, lá, esbarram na figura de Alfonso, Cucaracha de escrúpulos duvidosos encarnada por Duvivier. Fã de Miyazaki e de Toy Story, a estrela do programa Greg News, famoso por sketches do humorista Porta dos Fundos, conversou com o C7nema sobre a sua incursão nas veredas do cinema animado.

A Cucaracha Alfonso é interpretada por Gregório Duvivier na “Arca de Noé” inspirada em Vinícius de Moraes

O que a tua Cucaracha, Alfonso, tem de mais brasileiro na sua latinidade digna de um humor das chanchadas da Atlântida, ou seja, a tradição das comédias carnavalescas do Rio de Janeiro feitas entre os anos 1930 e 1960?

Adorei que viram um paralelo com as chanchadas da Atlântida. Eu sou fã demais das chanchadas, foi um grande momento do nosso cinema. Infelizmente, sinto que nós passamos a desprezá-las, não temos o mesmo carinho por elas. O nosso cinema foi para um caminho muito diferente, que não precisava tê-las apagado. Acho que o Cinema Novo desbravou um caminho distinto delas, mas as chanchadas eram uma delícia. Realmente, a personagem da cucaracha portenho, pilantra, está no inconsciente coletivo do brasileiro, assim como eles (os hispânicos) têm também o perfil do brasileiro malandro. É um clássico.

Portugal tem um profundo carinho pelo teu humor e pela tua forma de atuar. O que as tuas incursões posteriores por lá te ensinaram sobre aquela cultura?

Eu sinto um carinho muito profundo mesmo vindo de Portugal, e esse carinho é recíproco. Sou apaixonado por esse país, de verdade, por essa cultura. É complicado ser apaixonado por um país. Se fosse o meu, já seria complicado, porque odeio nacionalismos, pelo dos outros, então, é cafona, é piroso, mas eu sou. Então, o que eu vou fazer? Não é o Portugal de outrora, nem o Portugal colonizador. Eu gosto do Portugal de abril de 74, o Portugal que tem um bem-estar social, o Portugal que é anticapitalista. O barato de Portugal, pelo menos o que mais me enternece, é a hospitalidade, é o acolhimento, são as amizades que tenho e são fidelíssimas e profundas. São portugueses que viraram família. O espírito lá é mais da dádiva do que da dívida. Têm uma generosidade da alma que acho muito comovente.

A “Arca de Noé” de Alois Di Leo e Sérgio Machado vai singrar os mares do mundo. O quanto o trabalho de realização dos dois cineastas te trouxe uma nova perspetiva para o teu trabalho de voz? O que te ensinou sobre animação em si?

Arca de Noé
é a prova de que dá para fazer animação autoral, com personalidade, com graça, com ironia. O universo da animação é riquíssimo. Sou fã do Miyazaki e do Studio Ghibli, além da Pixar. Acho que tem caminhos e caminhos. A animação não é necessariamente mainstream ou formulaica, muito pelo contrário. Ela pode apontar para qualquer direção, pode contar tudo. Este filme é uma homenagem à música brasileira, ao Vinícius de Moraes e ao Tom Jobim também, que são os dois protagonistas, mas também é uma malandragem. Os dois personagens principais são ratos, dois malandros, dois andarilhos, dois artistas. Num país que veio de anos muito turbulentos, nos quais o artista virou um inimigo para o bolsonarismo, essa produção é muito importante. É importante louvar Tom e Vinícius, e o filme faz esse trabalho lindamente. A realização do Sérgio e do Alois foi muito cuidadosa, muito divertida. O Sérgio, com quem eu convivi mais, deu muita liberdade para criar, para brincar. Havia o texto (o argumento), mas ele incentivou muito que brincássemos e improvisássemos. É o tipo de trabalho que mais gosto de fazer, pois permite a criatividade do ator. Brincar com a voz é uma delícia, é um exercício de liberdade máxima dentro de uma restrição muito específica. A criatividade existe, mas dentro de uma moldura.

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