De “Surdina” a colaboração com Paulo Branco, Rodrigo Areias, o homem das mil produções

O novo filme de Rodrigo Areias, "Surdina", chega aos cinemas esta semana

(Fotos: Divulgação)

Quando olhamos para a listagem de filmes que tem na sua agenda, como produtor ou realizador, o cenário “assusta”. São cerca de 20 filmes a curto ou médio prazo. Nada demais, disse-nos Rodrigo Areias, brincando connosco ao dizer que apesar de ter tanto trabalho, é pai de filhos e que nesse dia ainda lhes vai preparar o jantar.

Foi uma entrevista super interessante ao realizador e produtor, onde falamos do seu novo filme, “Surdina“, que chega às salas esta semana, mas também do seu novo projeto – “The Worst Man in London” – onde vai trabalhar pela primeira vez com Paulo Branco.

Pelo caminho, ainda abordamos a pandemia, a falta de resposta do Ministério da Cultura e de uma verdadeira política cultural no nosso país. Uma conversa a não perder.

O Rodrigo costuma dizer que fazer filmes é como ‘rock n´roll’, por isso pergunto: como é que foi a criação deste “álbum”? [risos] Correu tudo bem?

[risos] Sim, repara, no fundo faço os filmes com pessoas de quem sou bastante próximo. Não são sempre as mesmas pessoas, mas o meu núcleo duro é sempre muito coeso. Somos amigos há muitos anos e fazemos filmes juntos também há muitos anos. É sempre pacífico, uma viagem pacífica. Este filme tem uma série de características diferentes. Orçamentalmente, não é assim tão diferente, mas a rodagem é sempre uma viagem pacífica. 

E como é que que foi o trabalho com o Valtel Hugo Mãe? Como foi o processo? Foi uma história que chegou até si?

Foi em 2009, acho eu, que li o “O Remorso de Baltazar Serapião” do Valter. E contactei-o. Disse-lhe que tinha gostado imenso do livro e que gostava que pensássemos num projeto em conjunto. Ele respondeu-me entusiasmado. Eu estava na sessão do “Corrente”, quando foi a estreia do filme em Vila do Conde, no ano em que ganhei o prémio do público e o da competição nacional. Ele estava lá. Eu não o conhecia pessoalmente, e ele disse-me: “Estive na tua sessão, adorei o teu filme. Bora lá fazer um filme”. 

Depois houve esta questão da coincidência da origem familiar do Valter, quer materna, quer paterna, que são de São Cristóvão de Selho, freguesia de Guimarães, que é a retratada no filme. Ele levou-me lá, e eu levei-o ao centro histórico de Guimarães para apresentar aquelas velhinhas que me conhecem desde que nasci. E a casa do arco, onde ia muito em miúdo, um espaço pelo qual sempre tive um fascínio. O Valter escreveu-me a história e enviou-me. Houve ligeiras alterações, poucas e durante o processo de rodagem.

Foi um processo diferente para mim pois foi a primeira vez que fiz um filme a partir do argumento de outra pessoa. Normalmente, escrevo a pensar já nas ideias visuais antes das narrativas. Aqui é um exercício ao contrário. É o exercício mais normal do Cinema, que é partir de uma narrativa para fazer um filme. 

E as personagens têm alguma correlação com pessoas reais ou é tudo fictício?

Têm. Têm bastante até. O Valter até costuma assumir que se baseia em personagens e relações familiares. Ali em São Cristovão de Selho, metade da família tem o nome do lado materno do Valter, a outra metade da família paterna. E ali no centro histórico também tem a ver com uma série de pessoas que conheço desde que nasci. Algumas delas estão no filme, até na forma de homenagem. Há vários não-atores que convidei pessoalmente para que pudessem fazer parte do filme, porque para mim representam aquela realidade. São personagens icónicas daquele centro histórico, daquele meio muito particular. 

E depois há a representação. Aquelas duas vizinhas, por exemplo, do centro histórico, são duas pessoas que conheci perfeitamente. Aquilo é representação, até fisicamente. O guarda-roupa, o cabelo, tudo tem piada para mim porque sei quem são aquelas pessoas. Uma delas já morreu, a outra é viva e foi quem nos emprestou os vasos. [risos]

[risos] Isso é fascinante…

Ela mora quatro portas ao lado. 

E ela já viu o filme?

Não, ainda não. Eles vão todos ver o filme no dia…

10 julho, em Guimarães… certo?

Exatamente.

E como está a ser a preparação desse filme-concerto com o Tó Trips?

Na verdade, quando fizemos o “Ornamento & Crime” (2015) não conseguimos fazer os Cine-Concertos por uma série de razões, como a disponibilidade. Mas o filme já tinha sido pensado para ter essa parte de apresentações, como o “Estrada de Palha” (2012)  teve. Uma série de Cine-Concertos. 

Nós agora também tínhamos uma tournée marcada, que pelas razões óbvias tem datas que são marcadas, desmarcadas, remarcadas e desmarcadas outras vez. É um período muito particular da nossa vida. Na verdade, o que fazemos é que há duas misturas: DCP com música e sem música. Isso já estava pensado. As bandas-sonoras normalmente são feitas com alguma simplicidade de meios até para poderem ser reproduzidas depois ao vivo. 

Acho que não é nada que acrescente algo ao filme, mas acrescenta em termos de experiência. Das vezes que fizemos correu sempre muito bem. As pessoas têm outra curiosidade e acho que nesta fase, as pessoas com calma e cuidado podem sair de casa e ir a um espetáculo, para também se sentirem bem. 

Este filme também tem isso. É um filme que toca especificamente ou retrata uma faixa etária muito particular, e achei que faria muito sentido, se pensarmos na limitação de espectadores que vai existir nas próximas semanas. É o meu contributo para aliviar esta tensão a que estamos a ser forçados a viver. Isso é mais importante que o desempenho comercial de um filme.

Por falar nisso, o Rodrigo no Ymotion falou da precariedade na indústria do audiovisual em Portugal. Agora – no meio da pandemia – notou-se ainda mais isso, em particular o drama dos técnicos que ficaram completamente desamparados…

Técnicos, atores, toda a gente. Toda a sociedade. Mesmo aqueles que não sentiram hoje, vão sentir amanhã. Não tenhamos dúvidas sobre isso. 

Agora, há aqui um lado… tínhamos o filme do Edgar que era para meados de março e vamos filmá-lo em agosto, com custos altos, elevadíssimos. Para um produtor garantir uma quarentena cinematográfica temos de meter a equipa num hotel, dar-lhes de comer mais de um mês. São custos absolutamente incomportáveis para um filme português, até porque não temos estrutura financeira para uma coisa destas. Mas por outro lado, a grande questão do Edgar era que nós até poderíamos hibernar até março, mas as pessoas não podem, e para elas que estão dentro de todo este processo é absolutamente injusto fazê-lo. Por isso diminuímos a dimensão do filme, com muita pena nossa, mas temos de garantir que as pessoas tenham o melhor até ao fim do ano. Era impossível [não ser assim]. Se não contribuirmos todos para ajudar, então não temos saída. Estamos todos juntos, não é?

Tenho falado com alguns realizadores portugueses e até com responsáveis por festivais de cinema e todos eles me dizem que tem havido uma resposta muito tardia e pouco acentuada do Ministério da Cultura  e até do ICA, nas questões mais diretamente ligadas com o cinema. Concorda com isso? Claro que ninguém estava preparado para isto, mas tem havido uma reacção um pouco tardia das instituições…

Sim, é notório, enquanto sociedade civil, que há pessoas mais preparadas para os cargos públicos que ocupam, e outras menos. Nós não temos dúvida nenhuma sobre isso. As respostas do Ministério da Cultura são tardias, perdidas. Veja o TVFest e depois o volta atrás. Isto tudo é meio surreal. Na verdade, tem a ver com análises sem ter uma estratégia. Mas não é de agora. Esta ministra ouvimos falar por más razões, mas do anterior nem sequer ninguém ouviu falar. As escolhas para ministros da cultura têm sido lastimáveis nos últimos anos. É estranha esta incapacidade ou falta de vontade política para que haja uma estratégia pensada a longo prazo para a cultura em Portugal. 

Esta nova discussão sobre a intermitência, da ministra tentar calar as manifestações das pessoas prometendo resolver-lhes o problema da intermitência, ou é falta de conhecimento ou é mentira pura. A primeira questão, fundamental para entender a questão da intermitência é: ‘Quantos são?’. Quantas são estas pessoas?

A última tentativa de resolução do problema, do qual eu fui consultado para dar pareceres sobre o assunto, foi no tempo de José Sócrates. E é preciso perceber que a proposta do Partido Socialista para a época, numa altura em que o país achava que vivia bem, não era razoável para nenhuma das reivindicações atuais do sector. Por isso, hoje dizerem e nos convencerem  que agora vão resolver o problema, é efetivamente dizerem às pessoas para não se manifestarem. A solução não é fácil. Ninguém sabe quantos atores há, quantos técnicos existem. Isto está tudo desconchavado e acreditar que vai haver ordem é…

É preciso estratégia política, a sério, não com base no disfarçar…

O Rodrigo tem o cargo de realizador, mas também de produtor. Fui à IMDB e naquela listagem são produções atrás de produções. Obviamente não lhe vou perguntar de todas, e já sei que o projeto do Edgar [Pêra] foi adiado e recomeçou agora. Mas teve mais projetos que sofreram com isto tudo?

Sim. Nós tínhamos um documentário que estava a ser rodado em Moçambique que a equipa teve de voltar no último avião possível, com vários problemas. Voos de repatriamento que nunca aconteceram e para acontecerem foi preciso pagar um preço altíssimo de embarque para as pessoas . 

Filmes que a pós-produção está parada, temos cinco ou seis. Há todo aqui um processo… Filmes em fase de arranque parados. Naturalmente, nós temos sempre muitos filmes em produção e isto é muito confuso porque houve um adiamento total e absoluto da vida das pessoas. 

Apesar de estarmos a trabalhar com uma certa normalidade no escritório há um mês, na verdade é muito complicado fazer qualquer coisa. Mesmo esta questão dos Cine-Concertos, só hoje o de Lisboa foi remarcado três vezes. Agora é 15 de julho, devido à mudança dos horários das superfícies comerciais. Era nas Amoreiras. 

Enquanto o do Porto não carece de alteração porque era no Cinema Trindade e está tudo bem, em Guimarães era no jardim e está tudo bem, o de Lisboa já teve de ser adiado. E nós voltamos a encontrar uma data em que toda a gente tivesse disponível, marcamos, foi adiado uma semana, para dia 15. E a 16 de julho temos em Aveiro. E há mais sete ou oito que estão em marca, remarca, cancela, espera. É o que é. Está tudo bem.

Acho é que temos de fazer as coisas, foi o que expliquei na NOS. A minha maior preocupação não é não haver espectadores, porque já estou habituado a lidar com isso [risos] A questão para mim tem a ver com o timing. Se a NOS me pediu para lançar o filme nesta altura, eu digo sim. Quando o Cinema Trindade pediu-me para reabrir a sala com o meu filme, eu só posso dizer que sim. Por exemplo, no Trindade vamos fazer dois Cine-Concertos: um à tarde, outro à noite. Vai ter a mesma quantidade de pessoas que um, pois a lotação da sala está limitada a 50%. Está tudo bem. 

Temos que nos ir habituando à realidade em que vivemos. No dia 1 de junho fui apresentar 3 sessões do “Surdina”. Em vez de uma, fui a três. Muitos dos atores estavam presentes, uns foram a uma sessão, outros a outra e por aí fora, até para não sermos muitos em palco. Tudo bem.

Temos de nos adequar a esta nova realidade, mas também saber compactuar, tentar ajudar. Este é um filme que também reflete sobre isso mesmo, de um amor tardio na 3ª idade, ou numa idade mais avançada. Acho que pode contribuir de alguma forma como feel good movie. E agora é que tem de ser lançado, não mais tarde para ter mais espectadores. 

Ana Bustorff e António Durães em “Surdina”

E por falar no filme, como é que foi o seu trabalho com o protagonista, o António Durães, para aquela personagem?

Fomos desenvolvendo aquela personagem através do texto do Valter. Fomos falando. O António Durães, apesar de ser da Figueira da Foz, mora em Braga, por isso fomos almoçar muitas vezes, íamos conversando, e na verdade fomos chegando aquela personagem os dois juntos. Houve também a parte do guarda-roupa, aquele peso que dá à personagem. Fizemos vários ensaios com os atores e fomos mudando ligeiramente o comportamento do ator A e B, a sua própria caracterização psicológica. Ver como ficavam os diálogos, porque é muito diferente ler e depois ouvir pessoas a dizer [as palavras]. Vamos cortando naquele tempo de ensaios, o que foi importante para mim.

O Rodrigo tem dois projetos como realizador. Um documentário, a “A Arte da Memória”, e uma ficção que é o “Vencidos da Vida”. Como é que estão esses projetos. 

Neste momento está tudo bem. O “Arte da Memória” acabei por parar e até o estamos a alterar bastante. Aproveitando que estávamos todos parados, estou em remontagem do filme, porque já tinha estreia marcada, em maio. Assim, aproveitei para cancelar todas as apresentações do filme – já tínhamos 3 ou 4 festivais.

Já o “Vencidos da Vida” é uma coletânea de curtas. É um projeto que estou a adiar há imenso tempo, mas que tenho algumas noções que foram filmadas. Mas no fundo é a distribuição de uma série de curtas com a Agência da Curta-Metragem. Era suposto estrear em julho no Curtas Vila do Conde, mas que deixei em stand by para já, apesar de estar quase tudo feito, faltando genérico e misturas. Mas foi melhor parar nesta fase até porque já tenho um filme maior para fazer. Um filme com a produção do Paulo Branco em que eu vou só ser realizador, o que também é uma experiência nova. Vou-me dedicar a isso a partir de setembro. 

E esse filme, pode falar um bocadinho dele? É sobre o quê?

Posso. Na verdade é sobre uma personagem, um filme sobre a era vitoriana. É em inglês e chama-se “O Pior Homem de Londres”. É uma personagem portuguesa que se transformou no maior marchand de arte da época vitoriana, que trabalhava com uma série de pessoas e os maiores rostos da pintura da época e que o Conan Doyle lhe atribuiu o epíteto de “O pior homem de Londres” (The Worst Man in London). E transforma-o num arqui-inimigo do Sherlock Holmes. É uma personagem que acaba por ser esquecida pela história e é odiada por uma série de gente, mas tem uma importância vital. É um filme de uma outra escala de produção que eu e o Paulo Branco temos vindo a discutir ao longo dos últimos anos e que agora vai ser posto em produção. 

É também uma novidade, uma estreia, trabalhar com ele, certo?

Sim, sim. Eu nunca trabalhei com o Paulo, até porque a minha teoria para continuarmos a ser amigos era não trabalharmos juntos [risos]. Vamos experimentar trabalhar juntos. Também me está a fazer falta eu não ser produtor dos meus próprios filmes.

Até esta questão de haver filmes de uma outra dimensão, de uma outra escala. Não é um filme da escala normal dos meus filmes. Um filme como o “Surdina” está na escala dos meus filmes e  têm ⅙ do orçamento deste projeto. Nesse sentido, nesta aventura de fazer um filme de escala maior, uma produção internacional, também não queria acumular cargos. 

E já tem elenco?

A pré-produção arranca em setembro. Rodamos no próximo ano, a pré-produção em setembro, quando eu fechar a rodagem do filme do Edgar, que também é uma produção grande. Aí posso começar a concentrar-me só no “The Worst Man in London”. 

[Risos] Eu olho para esta lista na IMDB [18 filmes, sem contar com este último citado], na sua filmografia como produtor para os próximos tempos e vejo dezenas de produções, como o “Listen”, que foi vendido pela Magnólia em Cannes, e até um filme de ficção científica…

Sim, “O Mar Infinito” do Carlos Amaral…

Exato. Acho isto muito curioso, tantos projetos. A trabalhar em tantos campos, consegue ter vida pessoal? [risos]

Sou pai de filhos e ainda lhes vou cozinhar hoje à noite o jantar. [risos]

[risos] Mas é complicado gerir isto tudo, não?

É complicado, mas é isto que me possibilita fazer tantos filmes. Na impossibilidade de realizar 150 filmes na minha vida, posso produzir 150 filmes. Pronto! E já não é mau.

E vou fazendo os meus filmes, vou fazendo as minhas coisas, e vamos nos organizando. Trabalhamos um bocadinho demais, mas não sou só eu. Somos muitos. O segredo destas coisas, como dizia o meu médico, é estragarmo-nos cedo. Depois é só recuperar. Esse é o meu plano de vida. [risos]

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