“É um lugar solitário e difícil” — Léa Drucker sobre a polícia em “Caso 137”

Caso 137 chega aos cinemas a 2 de abril

Já galardoada duas vezes com o César de Melhor Interpretação Feminina, primeiro por Custódia Partilhada (Jusqu’à la garde, 2017) e depois por Caso 137 (Dossier 137), Léa Drucker afirma-se como uma das atrizes essenciais a acompanhar no atual panorama do cinema francês.

A atriz, que vimos ainda em Close (2022) e No Verão Passado (2024), interpreta em Caso 137 o papel de uma agente da polícia francesa, Stéphanie, que trabalha para a Inspeção Geral da Polícia Nacional (Inspection Générale de la Police Nationale). Após os protestos dos Coletes Amarelos, que ganharam contornos de extrema violência, ela terá de investigar um potencial caso de violência policial, envolvendo uma granada de dispersão que deixou um jovem gravemente ferido.

Estivemos por duas vezes à conversa com a atriz — em Cannes, em 2025, e em Paris, em 2026 — à descoberta do que a move no cinema e de como se preparou para interpretar uma polícia que investiga outros polícias, com todos os níveis de complexidade que isso implica. O resultado é uma única grande entrevista, que pode ler abaixo.

Caso 137

O que a atraiu a querer protagonizar Caso 137?

O que me atraiu foi o argumento, pela extrema precisão com que abordava a função da IGPN e a forma cinematográfica como isso era contado através da personagem de Stéphanie Bertrand.

Fiquei muito interessada pela possibilidade de entrar num universo que conhecemos muito pouco. Eu própria não conhecia nada para além do nome e da função — não sabemos quem são as pessoas por detrás disso. Pareceu-me uma exploração muito interessante.

Além disso, o filme toca num momento muito marcante em França, a crise dos coletes amarelos. Isso também me interessou: entrar a fundo nesse trabalho através de uma personagem feminina, confrontada com dilemas e conflitos — externos e internos.

Ela encontra-se entre dois mundos: a desconfiança dos colegas policiais e a dos cidadãos. É um lugar muito desconfortável. E isso cria um percurso cinematográfico interessante, sobretudo porque o desafio era mostrar a humanidade dentro de algo que, à partida, parece técnico e frio.

Como preparou o papel? Falou com profissionais reais?

Sim, não teria conseguido sem isso. O argumento já era muito sólido e detalhado, mas falar com investigadoras da IGPN foi essencial.

Na polícia, tive de aprender a linguagem técnica, os gestos, a postura. Para ser credível, é preciso acreditar primeiro. E depois há o trabalho de criar ligações humanas. Perguntei-lhes porque escolheram aquela profissão, como lidam com emoções, o que gostam de fazer fora do trabalho.

Uma investigadora disse-me que queria ser polícia porque via Starsky & Hutch em criança. Isso ajudou-me a encontrar um ponto de ligação.

Ao abordar a questão dos “coletes amarelos”, isso mudou a sua perceção sobre esse momento?

Sim, completamente. Na altura, eu estava a trabalhar no teatro e os espetáculos foram cancelados por causa dos protestos. Para nós, era frustrante, mas tentávamos perceber o que estava a acontecer. As notícias mostravam muita violência, mas era difícil compreender tudo.

Foi importante ler jornalistas que foram ao terreno e mostraram outras realidades — pessoas comuns, famílias, que vinham protestar por sentirem que ninguém olhava por elas.

Havia violência, sim, mas também existiam razões legítimas. E também percebi que a polícia estava sob enorme pressão, sem organização clara, a lidar com situações difíceis.

A questão central, para mim, tornou-se: que ferramentas usamos para lidar com protestos? Podemos encontrar outras formas?

Disseram-me que a emoção não tem lugar ali. E eu pensei: sendo atriz, como é que conto isto? Mas percebi que, mesmo que não se mostre, é impossível não sentir. Trabalhei a partir daí.

Caso 137

Ao tocar nessas questões, o filme levanta reflexões sobre democracia e violência?

Sim, mas não acho que o cinema deva julgar ou moralizar. O objetivo é levantar questões, abrir espaço para reflexão.

Uma coisa que me marcou foi perceber que algumas pessoas gravemente feridas nunca foram reconhecidas como vítimas — foram sempre vistas como manifestantes violentos. Isso mostra como a narrativa pode ser manipulada.

O filme questiona isso. E acho que temos o direito, enquanto cidadãos, de questionar a nossa democracia: ainda podemos protestar livremente?

Eu acredito na conversa, na reconciliação, mais do que no confronto. Mas reconheço que falo de uma posição segura — não sou polícia nem estou na linha da frente.

Trabalhar num tema tão ligado à realidade política testou a sua consciência como cidadã?

Sim, claro que mexe connosco. Como cidadãos, reagimos muitas vezes de forma imediata às notícias — às vezes com razão, outras nem tanto. Mas quando encarnamos uma personagem e temos tempo para contar a história de forma íntima, abrem-se portas de compreensão mais complexas.

O trabalho de atriz passa por identificar-se com a personagem. Tive de encontrar uma forma de acreditar nela. E quando começamos a olhar o mundo através do olhar dela, tudo se torna mais complexo.

Isso foi muito ajudado pelo argumento e pelas duas investigadoras que conheci. Uma tinha a minha idade, outra era mais nova. Explicaram-me primeiro o lado técnico, mas depois fiz perguntas mais íntimas: porquê escolher ser polícia? O que motiva isso?

Havia coisas com que me identificava e outras não, mas havia um ponto essencial: são pessoas que escolhem um trabalho onde arriscam a vida. Isso muda o nosso olhar.

Também perguntei como lidavam emocionalmente com interrogatórios, sobretudo perante homens duros, muitas vezes hostis a serem interrogados por uma mulher. Há frustração, há tensão, mas elas focam-se nos factos. É isso que as sustenta.

Frequentemente, como em Caso 137 ou L’Intérêt de Adam (2025), os seus filmes cruzam o íntimo com o sistema. É algo que a atrai?

Claramente. Interessa-me ver pessoas comuns em funções extraordinárias — enfermeiras, polícias, agentes. São profissões com uma responsabilidade enorme.

Pergunto-me sempre: quem são estas pessoas? Que indivíduos estão por trás dessas funções?

Interessa-me mais o “herói comum” do que o super-herói. Há algo de muito comovente em tentar fazer justiça dentro de um sistema — ou cuidar da sociedade.

Mas também há limites. E o que acontece quando esses limites deixam de ser suficientes? Qual é a margem de manobra? O poder? A impotência?

Mas aqui, Caso 137 mostra polícias a investigar polícias. Isso levantou certamente questões delicadas.

Sim, e é fascinante. Há uma forte proteção interna dentro da polícia. Não acreditar num polícia é quase uma ofensa. Mas também é preciso compreender: é um trabalho muito difícil. Eles enfrentam violência, são insultados, estão sob pressão constante.

A IGPN existe precisamente para tentar restaurar a confiança entre cidadãos e polícia. Essa é a missão. Mas há sempre enviesamentos. A personagem diz isso: há um viés pessoal, mas também um viés institucional. E isso é profundamente humano.

Há uma cena em que o filho da sua personagem questiona a imagem da polícia. Crê que isso reflete algo geracional?

Talvez. O que acho interessante é que essa questão surge através da criança: “porque é que ninguém gosta da polícia?” E é muito difícil responder a isso de forma simples.

Essa escolha narrativa é muito inteligente, pois evita uma abordagem direta e mostra a complexidade através de um olhar inocente.

Caso 137

O filme também aborda o impacto das imagens e das redes sociais.

Sim, essa oposição é interessante: entre quem diz que isso anestesia e quem diz que ajuda a escapar à violência do mundo. Eu própria, às vezes, vejo coisas leves para desligar. Mas há um problema: o algoritmo. Ele é poderoso e influencia-nos muito, sobretudo na forma como consumimos informação.

A desinformação pode transformar completamente a nossa perceção do mundo. Por isso, valorizo ainda mais o cinema, a literatura e o teatro — permitem tempo, profundidade e complexidade.

O que destaca na realização de Dominique Moll?

A atenção ao detalhe. Tudo é pensado: atores, figurinos, cenários, objetos. E não há hierarquia rígida na equipa — todos contam. Isso cria um ambiente muito coletivo.

E havia um grande desafio: como filmar ecrãs de forma interessante? Pode ser aborrecido, mas ele conseguiu torná-lo cinematográfico.

Como diretor de atores, exigia sempre verdade e fidelidade à personagem, evitando qualquer excesso ou vaidade interpretativa.

Gosta da mistura entre cinema de género e temas profundos?

Sim. Tal como em Custódia Partilhada (Jusqu’à la garde, 2017), aqui também há uma abordagem de thriller para tratar temas complexos. Mas é importante evitar o sensacionalismo. Encontrar o equilíbrio entre narrativa e reflexão.

Recebeu um prémio recentemente, o Lumière de Melhor Atriz. O que significa para si um prémio?

É difícil explicar. Ser nomeada já é especial. Ganhar é emocionante — é como um reconhecimento, um presente. E dá-nos um momento de palavra diferente, mais livre.

Aproveitei para falar também da ausência de mais realizadoras. Ainda são apenas cerca de 30% do que é lançado nas salas. É importante equilibrar isso.

É importante, em Caso 137, o facto de a protagonista ser uma mulher?

É muito significativo. Permite explorar dilemas específicos: trabalho, maternidade, horários, escolhas. No filme, a personagem muda de função dentro da polícia para conseguir conciliar com a vida familiar. Isto é algo com que muitas mulheres se identificam. Acrescenta uma camada importante à história.

Falando da maternidade, considera esse elemento central na construção da sua personagem?

Sem dúvida. Existe uma questão universal: como conciliar trabalho e família, especialmente em profissões exigentes. E há também a questão do futuro — que mundo estamos a deixar aos nossos filhos? No caso da Stéphanie, isso é muito evidente quando olha para o filho.

Frequentemente interpreta personagens “do lado certo”. Escolhe esse tipo de papéis?

Acho que ver personagens que lutam por algo, que enfrentam dificuldades e continuam a tentar encontrar a verdade ou a justiça — mesmo em filmes muito realistas — pode dar alguma esperança.

Não sei se o cinema muda o mundo, mas ver essas histórias ajuda. Agora, sobre estar “do lado certo”, isso é relativo. Em L’Intérêt de Adam (2025), por exemplo, a personagem Lucy é enfermeira e cuida de crianças — claro que está do lado certo. Mas também está presa num sistema burocrático que a impede de encontrar soluções.

E isso aproxima-a da personagem Stéphanie Bertrand. Ambas lutam contra os limites impostos pelo sistema, limites que afetam a sua própria humanidade. No caso da IGPN, é um lugar complicado: os polícias não gostam deles porque são investigados, e os cidadãos acham que eles protegem a polícia. Não são populares. É um lugar solitário e difícil.

Mas a personagem quer fazer bem o seu trabalho, quer encontrar justiça e restaurar a confiança. Isso, para mim, dá alguma esperança — ver pessoas que tentam fazer o melhor possível dentro de um sistema com limites.

Também é divertido explorar diferentes profissões através dos papéis?

Sim, é fascinante. É quase como voltar a ser criança — imaginar outras vidas. Mas também é muito sério. Estamos a representar profissões reais, com responsabilidade.

No início, fiquei intimidada ao falar com polícias. Não sabia até onde podia ir nas perguntas. Mas depois criou-se confiança e pude aprofundar.

Gosto muito desse contacto com pessoas fora do cinema. Não quero ficar só nesse mundo.

Hoje em dia, como escolhe os seus projetos?

É uma mistura de tudo: intuição, argumento, realizador. Mas também há sorte — são os realizadores que me escolhem.

Quando leio um argumento e sinto ligação imediata, sei que quero contar aquela história.

O que me interessa não é julgar personagens, mas compreendê-las. Encontrar humanidade em todos — mesmo nos mais difíceis.

Recusa muitos filmes?

Às vezes. Não gosto de dizer não, prefiro sentir entusiasmo pelo que faço. Mas quando não sinto essa ligação, prefiro não avançar.

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